quinta-feira, 12 de junho de 2008

Graça Barata ou Lei da Nova Aliança? por Christopher Walker

Graça Barata ou Lei da Nova Aliança? por Christopher Walker

Freqüentemente, quando nos deparamos com situações não exatamente previstas nas Escrituras ou casos polêmicos que dividem opiniões no meio do povo de Deus, somos tentados a perguntar: por que Deus não deixou uma instrução mais clara sobre isso em sua Palavra? Não haveria mais discussão, e tudo ficaria tão simples!
Por exemplo, no caso do divórcio, por que Jesus não definiu de uma vez por todas se a cláusula de exceção inclui a possibilidade de novo casamento? Teria evitado volumes e volumes de argumentos, defesas, ataques e confusões. Dá até a impressão de que a ambigüidade foi proposital. Mas, neste caso, teríamos que concluir que Deus tem prazer em nos deixar tateando no escuro. Ou será que teria uma outra razão?

As Duas Alianças

Na verdade, a chave desse mistério está na diferença fundamental entre a lei do Velho Testamento e a dispensação que Jesus introduziu na Nova Aliança. O princípio da lei é que corações endurecidos e obscurecidos pelo pecado requerem ordens e limites claramente estabelecidos. Deus precisava revelar sua natureza e o padrão de sua santidade através de leis e mandamentos para que o homem pudesse ver a extensão da sua queda e a impossibilidade de restaurar a si mesmo.
Por outro lado, a premissa da Nova Aliança é que corações quebrantados, renovados e cheios do Espírito Santo irão muito além do “mínimo necessário” estabelecido na lei. Quem ama seu próximo não precisa do mandamento “Não matarás”. Quem considera que tudo pertence ao Senhor não terá que ser cobrado para dar 10%.
A lei define os comportamentos e ações do homem que são inaceitáveis a Deus. Já os motivos e intentos do coração estão fora do seu alcance. Conseqüentemente, em tese pelo menos, é possível alguém cumprir rigorosamente os preceitos da lei diante dos olhos humanos e, ao mesmo tempo, ter um coração reprovado por Deus. Por isso, no Sermão da Montanha e em vários outros discursos, Jesus enfatizou tanto o interior em contraste com o exterior. Ele deixou muito claro: não era uma questão de abolir ou mudar a lei (Mt 5.17-20), e, sim, de cumpri-la além da letra, no espírito e intenção original de Deus quando a formulou. É por isso que a justiça dos discípulos de Jesus deveria “exceder em muito” a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5.20).

Os Fariseus e os Saduceus

Seis vezes, no Sermão da Montanha, Jesus disse “Ouvistes que foi dito... Eu, porém, vos digo” para contrastar a velha e a nova maneira de pensar e agir. Ao contrário do que muita gente pensa, conforme explica Martin Lloyd-Jones em seu livro “Estudos no Sermão da Montanha”, Jesus não estava corrigindo a lei, mas a falsa interpretação dada pelos fariseus.
Através dos séculos, os cristãos também têm interpretado mal a natureza da Nova Aliança. De um lado do espectro, os liberais entenderam que a lei não tinha mais validade e, por isso, ninguém precisava mais sentir-se obrigado a cumprir normas ou regulamentos. A graça da nova ordem para eles seria mais um ilimitado direito a ser perdoado do que a capacitação divina de viver uma nova vida. É o que costuma ser chamado de “graça barata”.
Na outra extremidade, os legalistas transformaram as palavras de Jesus e dos apóstolos em um novo código de ordens e mandamentos. Só aboliram as ordenanças cerimoniais, os sacrifícios animais, a guarda do sábado e os demais aspectos específicos da lei de Moisés. Porém a natureza essencial da lei foi mantida: o uso de ordens e mandamentos com limites específicos para impedir que corações duros e insensíveis achassem brechas para transgredir a vontade de Deus. Há pouco tempo, era comum entre determinadas igrejas a regulamentação de “usos e costumes” para controlar o comportamento exterior dos seus membros. Ainda que essas regras tenham caído em grande parte hoje, a prática de impor as normas encontradas no Novo Testamento sobre o povo continua, resultando no que podemos chamar a “lei da Nova Aliança”.
Lei da Nova Aliança? Não poderia haver maior contradição de termos. Como fariseus modernos, ao invés de buscar a transformação interior que nos dá o anseio de ir além do mandamento para agradar ao Pai, ficamos presos à letra, colocando jugos pesados sobre os outros e sobre nós mesmos. Enquanto isso, os saduceus são mais soltos, mais livres, mais espontâneos, mas erram o alvo do mesmo jeito, pois procuram uma liberdade que não é baseada na verdadeira Palavra viva. Ao rejeitarem o jugo dos mandamentos, acabaram jogando fora também os fundamentos e princípios da Palavra escrita.

Onde Está Nosso Manual?

Vamos voltar à nossa pergunta inicial. Por que Jesus não deixou instruções mais específicas sobre o divórcio? Pela mesma razão que ele e os apóstolos não deixaram um modelo definido para o governo da igreja, para a condução do culto, para a porcentagem exata que os cristãos devem contribuir e para tantos outros assuntos do dia-a-dia da igreja e da vida cristã. Primeiro, por uma questão prática, se tivéssemos normas definidas para a condução do culto, por exemplo, seríamos obrigados a adotar exatamente o mesmo tipo de cultura e costume em todas as épocas e em todos os lugares, o que definitivamente não combina com a natureza rica e multiforme do nosso Deus. Segundo, por causa da natureza essencial da Nova Aliança, nosso comportamento e prática exterior devem refletir nossa transformação interior e ser resultado do nosso contato vivo com Deus e não da obediência mecânica a um conjunto de regras.
O que encontramos na Palavra são princípios, fundamentos, chaves gerais. Quando os fariseus discutiram com Jesus sobre a brecha que Moisés deixou na lei para permitir o divórcio, ele os levou de volta ao princípio de tudo para entender o coração de Deus sobre o assunto. Jamais entenderemos a intenção ou o espírito da Palavra se tentarmos extrair dela uma regra fixa que resolva todos os casos.
Como, então, lidar com as situações práticas? Se não existe uma “lei da Nova Aliança”, como podemos saber o que é permitido por Deus, agradável a ele, e o que não é?
Sem dúvida, a base de tudo está na Palavra escrita. Sabemos do valor que Jesus dava às Escrituras, usando-as como arma contra Satanás, como autenticação de todas as suas ações, como ponto referencial claro e indiscutível. Não estamos perdidos num oceano de incertezas, sem fundamentos, livres para fazer o que “sentimos” que está certo.
Por outro lado, como não temos um manual que ensina o que fazer em cada tipo de situação específica, devemos aplicar os princípios objetivos da Palavra de acordo com a revelação mais ampla da pessoa e do caráter de Deus, conforme vistos na Escritura como um todo, não por meio da interpretação duvidosa de palavras no original ou de textos isolados.

Vivendo de Acordo com o Espírito da Palavra

Antes que você comece a levantar objeções, pense um pouco em Jesus e como ele enfrentava os fariseus com suas controvérsias sobre a lei. Quando acusaram os seus discípulos de transgressão por apanharem espigas de trigo no sábado (Mt 12.1-8), Jesus usou o exemplo de Davi que, num momento de necessidade, comeu os pães da proposição do tabernáculo, em clara contradição a uma ordenança divina.
O que ele queria dizer com isso? Que Deus não liga para os detalhes, que não tem importância errar um pouco de vez em quando? Que a lei não é importante e agora podemos agir de acordo com nossa consciência ou nosso entendimento da vontade de Deus, desde que sejamos sinceros? Não! Ele estava dizendo que há uma forma de obedecer à lei na qual se cumpre o espírito da palavra, mesmo que se tenha de quebrar a letra de um determinado mandamento. Era o que queria dizer também quando afirmou que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado (Mc 2.27).
É claro que isso não pode ser interpretado como uma licença para cada indivíduo cumprir o que pensa ser o espírito da Palavra e quebrar qualquer mandamento que quiser. Para nos proteger disso, existe a Igreja, o Corpo de Cristo, a liderança, o conselho de irmãos mais maduros etc. Na verdade, como Paulo exemplificou, embora ele fosse livre para agir como judeu ou gentio, debaixo da lei ou isento dela (1 Co 9.19-23), ele agia com muito mais domínio próprio e cuidado, pois o amor de Deus o constrangia (2 Co 5.14).
No caso do divórcio, uma das situações mais clássicas e controversas envolve o cônjuge que foi traído e que deseja iniciar um novo relacionamento. De acordo com a interpretação de alguns, a exceção de Mateus 5.32 e 19.9 só autoriza a separação, não um novo casamento. Nesse caso, a aplicação da “lei” poderá trazer um jugo que a pessoa não está preparada para carregar. É muito comum, nesses casos, as pessoas se afastarem da comunhão da igreja e até da comunhão com Deus por não conseguirem conciliar a exigência com sua capacidade de responder em obediência. Jesus condenou duramente os fariseus por atarem fardos muito pesados sobre as pessoas, que acabam morrendo pelo caminho por não conseguirem suportá-los (Mt 23.4).
Por outro lado, a “lei” do Novo Testamento pode ser interpretada de forma mais branda, se aceitamos que a exceção de Jesus permite o novo casamento. Com isso, perdemos o espírito da Nova Aliança. Vi, recentemente, um bom exemplo disso na coluna de um periódico evangélico em que um pastor responde a perguntas dos leitores. A pergunta era de um marido que, por ter sido traído pela esposa, queria saber se estava livre para se casar novamente. Em sua resposta, o pastor explicou sua posição dizendo que havia, sim, base para novo casamento, já que o caso dele se encaixava perfeitamente na exceção prevista por Jesus. Foi uma resposta coerente, fundamentada, bem explicada.
Entretanto, é justamente nesse tipo de contexto que proponho que estamos aplicando uma “lei da Nova Aliança” de forma contrária ao Espírito de Jesus. Como posso dar uma resposta a alguém que não conheço, cujo contexto me é totalmente desconhecido, discordando ou dando aval a uma decisão tão séria como essa? Como posso saber se já se esgotaram todas as possibilidades de restauração ou se o marido também não foi culpado, ainda que indiretamente, pelo ocorrido? Será que um coração quebrantado, transformado pela Nova Aliança, iria procurar um aval superior, uma brecha para poder se casar novamente, se houvesse pelo menos um pequeno raio de esperança pela restauração do seu casamento ?
Um dos argumentos mais fortes contra a aceitação de exceções para um novo casamento é que as pessoas não lutam com tanto empenho para preservar a aliança quando acham que, se essa não der certo, sempre haverá a possibilidade de começar uma outra. Outra vez estamos perdendo a essência da Nova Aliança. Se as pessoas que se convertem na igreja – incluindo a nós mesmos – não forem transformadas a ponto de quererem ir além do mínimo necessário, além da letra, a fim de agradarem plenamente ao Pai, estamos perdendo todo o objetivo da obra de Jesus. Podemos até cumprir as normas conforme nosso entendimento da Palavra, mas não passaremos de servos inúteis (Lc 17.10).
“Ah, mas isso é muito utópico”, alguém vai replicar. “Nós não atingimos esse nível ainda.”
É verdade. Por isso, mesmo procurando não viver sob o regime da lei, ainda precisamos dos princípios, dos pontos de referência, dos “mandamentos” da Palavra para nos orientarem, para nos mostrarem em que aspectos nosso coração ainda não foi transformado na prática. Entretanto não precisamos nos contentar ou nos acomodar com esse estado. E jamais devemos colocar a “lei da Nova Aliança” como a forma correta ou final para regular a vida dos cristãos.
Assim sendo, na nossa interpretação e aplicação da Nova Aliança, procuremos enxergar tudo através da revelação integral da Pessoa de Jesus que temos na Palavra e na nossa comunhão com ele. O que Jesus faria nesta situação? Como o Jesus que rejeitou a aplicação fria e condenatória da lei à mulher apanhada em adultério trataria as pessoas que chegam à igreja hoje com vidas totalmente atrapalhadas, num segundo ou terceiro casamento? Como ele agiria com pessoas arrebentadas, feridas, sozinhas, sem chance de voltarem à primeira aliança?
Como o Jesus que expulsou os comerciantes da casa do Pai e condenou duramente aqueles que usaram suas tradições para invalidar a Palavra de Deus (Mt 15.6) olharia para líderes cristãos que anulam suas alianças e casam-se outra vez, simplesmente porque sentem que o amor acabou ou que não há mais base para manter seu casamento? Como ele responderia àqueles que buscam no significado das palavras originais ou na opinião de eruditos brechas para justificarem atitudes que banalizam o valor do casamento e, conseqüentemente, o valor da nossa aliança com Deus?
Há um caminho mais excelente, uma aliança muito superior à aliança da lei. Nossas alternativas não são apenas o caminho do legalismo ou o caminho do liberalismo. Se a Nova Aliança é para nós hoje, devemos buscar a realidade da sua transformação, não apenas uma teoria ou um jargão diferente. O caminho já foi aberto; não nos contentemos em viver fora dele!

Os Quatro Regimes de Divórcio na Bíblia por Gino Iafrancesco Villegas

Os Quatro Regimes de Divórcio na Bíblia por Gino Iafrancesco Villegas

Embora a Bíblia não trate de casos específicos de divórcio, temos alguns “regimes” ou casos genéricos delineados que ajudam muito na análise das diversas situações. Muitos erros de interpretação resultam da aplicação dos textos em casos que não se enquadram no regime respectivo.

Regime da lei

Em primeiro lugar, devemos examinar o que a lei de Moisés dizia sobre o divórcio. O único texto da lei que trata especificamente do divórcio está em Deuteronômio 24.1-4.
“Se um homem tomar uma mulher, casar-se com ela, e esta depois deixar de lhe agradar por ter ele achado nela qualquer coisa indecente, escrever-lhe-á uma carta de divórcio, e lha dará na mão, e a despedirá da sua casa” (v.1).
O que nesse trecho se traduz por "coisa indecente" é uma palavra hebraica que aparece somente uma vez em toda a Bíblia, e aqui o tradutor a chamou de “coisa indecente”; porém, como a palavra não aparece em outro lugar, gerou-se certa confusão para o povo de Israel. O que quer dizer, exatamente, coisa indecente (ou vergonhosa em algumas traduções)? Qual é o alcance dela?
Diante disso, formaram-se várias escolas de interpretação, que foram passando de geração em geração, até chegar aos mais renomados intérpretes da lei, que foram, de um lado, Hillel (o Gamaliel de Atos 5.34 era neto de Hillel), e, do outro, Shamai. Esses dois rabinos, muito respeitados, eram os que tinham maior autoridade na interpretação da Bíblia. É importante saber que, embora todo o povo devesse ler as palavras da lei, cada um na sua casa e para sua família, havia uma orientação na própria Escritura para que, se alguém tivesse dificuldade para interpretá-la ou um caso de difícil resolução, devia ir perguntar aos sacerdotes e aos anciãos e, de acordo com sua orientação, dar a questão por resolvida (Dt 17.8-11; veja também Ag 2.11; Ml 2.7).
Não é difícil imaginar que muitos casos envolvendo separação de casais fossem levados aos rabinos e entendidos na lei. Porém lá também encontraram divergências.
A escola de Hillel era uma escola bem liberal e, basicamente, interpretava essa palavra por qualquer coisa que incomodasse ao esposo. Conseqüentemente, os que seguiam a sua interpretação permitiam o divórcio por qualquer motivo. Por outro lado, Shamai era o representante de uma escola mais restrita e interpretava essa palavra como “fornicação”; para ele nenhum outro motivo era justificado para autorizar o divórcio.

O Regime Ordinário

Olhando agora o Novo Testamento, encontramos as palavras de Jesus sobre o divórcio nos três evangelhos sinópticos (Mt 5.31,32; 19.3-9; Mc 10.2-12; Lc 16.18).
Os judeus queriam saber a posição de Jesus sobre o divórcio em relação às duas escolas rabínicas: ele era a favor da opinião liberal de Hillel ou da linha mais severa de Shamai?
Se tivéssemos somente a resposta de Jesus registrada nos evangelhos de Marcos e Lucas, poderíamos interpretá-la assim: “Não sou a favor nem de um nem de outro; voltem ao propósito original de Deus que não admite divórcio em hipótese alguma (o que Deus ajuntou não o separe o homem)”.
O que podemos afirmar, entretanto, é que essas passagens tratam do regime ordinário, ou seja, do casamento à luz do plano de Deus antes do pecado, e que define a norma para os casamentos no regime da Nova Aliança. De acordo com o texto em Marcos, que é mais completo, essa norma pode ser resumida da seguinte forma:
Primeiro: qualquer que repudiar a sua mulher e se casar com outra adultera;
Segundo: o que se casar com a repudiada adultera;
Terceiro: se a mulher repudiar a seu marido e se casar com outro, adultera.
A atitude do discípulo de Jesus não deve ser de buscar uma brecha, uma permissão nas Escrituras ou nas palavras de Jesus para justificar o divórcio. Devemos crer que a obra perfeita de Jesus permite que voltemos à planta original de Deus para o homem.
Além das passagens nos evangelhos, há mais dois textos no Novo Testamento que falam sobre o divórcio. Romanos 7.1-3 descreve o regime ordinário (casamento sem opção de divórcio), embora seja mais uma alegoria da vida espiritual do que uma afirmação doutrinária. Em 1 Coríntios 7, antes de falar sobre outras situações no casamento, Paulo define o padrão que Deus espera dos cristãos nos versículos 10 e 11.

O Regime da Exceção

Quem já estudou alguma coisa sobre divórcio no Novo Testamento sabe que no evangelho de Mateus encontra-se a famosa cláusula de exceção, que não consta na resposta de Jesus nos outros dois evangelhos. “Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério...” (Mt 19.9).
Deus não planejou o divórcio quando criou o casamento. Entretanto o pecado entrou e trouxe infidelidade, egoísmo e destruição para o casamento. Moisés permitiu (não ordenou, como disseram os fariseus) o divórcio por causa da dureza dos corações, dureza essa que existia mesmo entre o povo escolhido de Deus (Mt 19.8). Da mesma forma, Jesus admitiu uma exceção ao padrão perfeito e original de Deus, mas deixou claro que era uma exceção muito limitada. Com isso, possivelmente estivesse concordando com a escola rabínica de Shamai e condenando a interpretação liberal de Hillel. Quanto ao padrão normal do casamento, Jesus reafirmou o propósito original de Deus antes do pecado; quanto à possibilidade de quebra da aliança por causa do pecado, concordou com a lei de Moisés, que permitia divórcio somente no caso de impureza, mas rejeitava as interpretações distorcidas dos liberais.
Embora para Deus a aliança do casamento tenha natureza indissolúvel (“tornando-se os dois uma só carne”), Jesus reconheceu que existem atos tão sérios que chegam a quebrar a aliança. É importante, porém, tratar este assunto com muita responsabilidade e temor de Deus, pois não é qualquer situação que pode ser enquadrada no “regime da exceção”. Em toda a Bíblia, seja em relação ao divórcio no sentido literal, seja em relação ao sentido figurado de quebrar nossa aliança com Deus, esse assunto é tratado com a mais séria gravidade. Deus odeia toda e qualquer violação de aliança (Ml 2.16).

Regime Misto

Em 1 Coríntios 7, depois de referir-se ao regime ordinário que é sempre o ponto de referência para qualquer discussão sobre o assunto, Paulo diz: “Aos mais digo eu...” (v.12). Em outras palavras, ele vai tratar de uma situação não coberta pelo regime ordinário, um caso especial. São os casamentos mistos, entre um cônjuge convertido e um não-convertido.
Alguns cristãos achavam que não podiam manter sua aliança de casamento com o cônjuge não-cristão. Entretanto Paulo afirma que em tais casamentos mistos o cônjuge cristão nunca deve tomar a iniciativa para abandonar o casamento; pelo contrário, deve fazer tudo possível para mantê-lo a fim de “santificar” o cônjuge não-convertido e os filhos.
Se, porém, o cônjuge não-convertido resolve ir embora, o cônjuge cristão não ficará sob jugo de condenação nem sob “servidão”, pelo fato de não ter sido a causa do rompimento da aliança. Para muitos estudiosos, teríamos aqui uma segunda “exceção” na indissolubilidade do casamento. De qualquer forma, Paulo está descrevendo uma situação não prevista nas palavras de Jesus nos evangelhos.

Aplicação

Muitos erros são cometidos por tratarem-se todos os casos de forma igual. Se você tratar um caso de exceção somente com os versos do regime ordinário, você estará fazendo um uso equivocado dos versos onde aparece o regime ordinário, não importa em qual livro esteja escrito na Bíblia. Podemos ter todos esses versos marcados, porém não se aplicam no caso de exceção; aplicam-se a todos os demais casos onde não se requer a exceção. Do contrário, a exceção não seria a exceção.
Se você aplicar o regime ordinário onde o Senhor disse: "salvo neste caso", então você estará passando por cima do Senhor Jesus, colocando uma carga mais pesada do que o próprio Senhor colocou. Porque o Senhor Jesus, sim, estabeleceu uma exceção que você está ignorando.
Por outro lado, é importante ressaltar que a exceção não significa que a pessoa esteja obrigada a repudiar ou a divorciar; pode perdoar. Não é uma ordem, é uma permissão, que em nada revoga o desejo prioritário e fundamental que Deus tem de preservar, sempre que possível, o casamento.
Também é importante enfatizar que a existência de uma exceção não abre as portas, como fazia o rabino Hillel, para permitir o divórcio por qualquer motivo. Existe uma exceção, sim, que não é obrigatória (pois mesmo nos casos cobertos pela exceção, o casamento ainda pode ser preservado pela graça de Deus), e é bem restrita: somente no caso de fornicação (relações sexuais ilícitas) é que um cônjuge pode repudiar o outro. Qualquer outro motivo, segundo Jesus, é causa de adultério, tanto para quem repudia como para quem casa com o repudiado.

Obs. Resumido e adaptado de um artigo que pode ser lido em sua totalidade, acessando o site www.revistaimpacto.com.

Gino Iafrancesco Villegas vive em Teusaquillo, Bogotá, com sua esposa Mirian; tem sete filhos e uma neta. Ministra a Palavra na Colômbia e também em igrejas e conferências em outros países, inclusive no Brasil, desde 1978. É autor de vários livros e algumas de suas obras podem ser encontradas em seus blogs: http://es.netlog.com/giv1, em português, e http://exegiv.zoomblog.com/, em espanhol.

Irmãos em Cristo Jesus.

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