sábado, 6 de setembro de 2008

Princípios de igreja no Tabernáculo ( Parte III ) A. Mcshane

O conteúdo do Tabernáculo

Por enquanto, temos nos preocupado principalmente com as lições que podemos aprender da aparência geral e da estrutura do Tabernáculo. Agora pensaremos no seu conteúdo, procurando nestes objetos mais algumas sugestões relacionadas com o testemunho das igrejas. Devemos continuar lembrando que o Tabernáculo, ao contrário da maioria das construções religiosas de hoje, não era um local de reunião para o povo. Suas dimensões reduzidas indicavam que ele era totalmente inadequado para tal finalidade. Não, o Tabernáculo era a habitação de Deus, e todos os vasos contidos nele eram para o Seu serviço. É claro que sabemos que a habitação de Deus hoje não é o prédio de reuniões, mas as pessoas que ali se reúnem. Tanto se fala no Cristianismo sobre os prédios que muitos nas igrejas locais ainda imaginam que o prédio onde se reúnem é “a casa de Deus”. É muito bom possuir um abrigo das intempéries onde o povo pode se reunir confortavelmente, e ter este prédio legalmente registrado no nome de responsáveis legais, porém devemos lembrar que nem o prédio nem os responsáveis legais por ele devem ser um fator decisivo em resolver questões relacionadas à igreja. Se a igreja resolve deixar seu antigo lugar de reuniões e dois ou três permanecem naquele lugar, eles não podem reivindicar ser a igreja.

Ao entrar no pátio do Tabernáculo dois móveis eram vistos — o primeiro era o altar de bronze perto da porta, e o segundo a pia de bronze colocada um pouco mais distante. Estes dois móveis eram públicos, e bem conhecidos de toda a congregação de Israel. Ninguém podia aproximar-se do santuário de Deus sem passar por eles. Quando pensamos no altar com seus sacrifícios e fogo, não podemos deixar de lembrar do único sacrifício pelos pecados oferecido na Cruz. Todo santuário presente deve apresentar, de forma bem destacada, a morte de Cristo. Seja na celebração da Ceia, na pregação do Evangelho, no ensino dos santos, ou em oração pública, este assunto sublime deve ter a pre-eminência da qual é digno. O ritualista que confia na justiça própria enaltece o exemplo de Cristo, mas o verdadeiro cristão sabe que foi necessário um sacrifício, e que a igreja é a grande testificadora acerca da Cruz. Este móvel não possuía nada que atraísse os sentidos naturais. O derramamento de sangue, o esfolamento de animais, e a carne queimada não tinham como finalidade atrair os curiosos, mas sim estabelecer um contraste claro com os bezerros de ouro e os ídolos brilhantes do Egito. “Nós pregamos a Cristo crucificado” é o lema de toda verdadeira igreja, e esta mensagem é ainda considerada por muitos como escândalo e tropeço.
Em relação ao segundo móvel, a pia de bronze, sabemos muito pouco. Nem seu tamanho, nem seu peso, nem seu formato são informados, mas pelo menos sabemos que foi feito dos espelhos das mulheres, e que era usado pelos sacerdotes para lavar suas mãos e pés. Com certeza ela nos fala da Palavra de Deus. Há duas citações que deixam isto claro: “Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a Tua Palavra” (Sl 119:9); e: “Vós já estais limpos, pela Palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Todo verdadeiro santuário de Deus hoje dá destaque às Escrituras. Ao serem lidas e ensinadas, elas têm um efeito santificador sobre a congregação, ajudando a preservá-los vivendo e andando em pureza. Uma igreja difere dos sistemas religiosos por não necessitar de credos, artigos de fé, confissões e catequismos. Para ela, a Palavra de Deus é a última corte de apelação, e ela humildemente submete-se ao “Assim diz o Senhor.” Há o perigo de considerar que as Escrituras não têm lugar em determinadas reuniões, especialmente a Ceia do Senhor. Se crermos e praticarmos isto, os santos poderão até achar que não precisam levar suas Bíblias para estas reuniões. Apesar de todos concordarmos que ministério prático não faz parte da Ceia, o que pode nos ajudar melhor a lembrar do Senhor do que ler as Escrituras que falam dEle? Está implícito em I Coríntios que, após a Ceia, os dons eram exercitados, e sem dúvida esta é uma hora apropriada para usarmos a Palavra purificadora. Todos que visitam uma igreja devem ficar impressionados com o uso constante que é feito das Escrituras, e pelo fato de que tudo é feito de acordo com o ensino delas.
Após passar pelo átrio do Tabernáculo e entrar no Lugar Santo, três móveis eram vistos: a mesa, o candeeiro e o altar de incenso. Estes móveis não eram públicos como aqueles que acabamos de considerar, mas eram vistos apenas pelos sacerdotes no seu serviço. Cada um desses tem uma lição a nos ensinar acerca do funcionamento interno da habitação de Deus hoje. A mesa, com sua coroa e seus doze pães cobertos de incenso, nos falam da unidade dos santos, mantidos em união pelo poder divino, e desfrutando de doce comunhão perante Deus. Em tal companhia, as distinções nacionais, sociais ou raciais não são mais vistas. Aqueles que estão na comunhão não só sabem sobre a unidade dos santos, mas também a experimentam em comunhão uns com os outros. Os pães no Tabernáculo eram todos iguais, independentemente do tamanho da tribo que representavam — assim devemos lembrar que a igreja não é lugar de auto-afirmação, ou divisão ou contendas. Como poderia ser, se cada vez que partimos o pão proclamamos não apenas a morte do Senhor, mas também que estamos em comunhão com todos aqueles que participam do mesmo pão?
Defronte da mesa dos pães da proposição havia o candelabro. Cada tarde ele era aceso pelo sumo sacerdote, queimando a noite inteira até pela manhã, de sorte que a habitação de Deus nunca estava no escuro. Este móvel com suas sete lâmpadas nos lembra da luz da igreja brilhando no poder do Espírito. Para o homem natural a igreja é um mistério, pois ele não pode entender como pessoas podem reunir-se e realizar uma reunião ordeira sem algum tipo de dirigente para controlá-la, ou algum programa pré-definido para ser seguido. Aqueles que estão “do lado de dentro”, porém, sabem como isto funciona, pois eles contemplam a ordem de Deus sendo executada pelo poder do Espírito, e vêem que funciona perfeitamente. Exercícios sacerdotais e ministério público nos ajuntamentos dos santos não são desenvolvidos “no escuro”, nem aqueles que servem ficam tropeçando uns sobre os outros enquanto se ocupam no serviço de Deus. Não, mas mesmo sem organização e planejamento humanos, harmonia perfeita pode ser produzida pela direção do Espírito Santo.
O terceiro móvel nesta parte do Tabernáculo era o altar de incenso, que representa a adoração na igreja. Os santuários de Deus são lugares onde Ele recebe o louvor do Seu povo. Nós nos reunimos, não simplesmente para apreciarmos a companhia um do outro, mas especialmente para desfrutarmos de comunhão com Deus. Cantamos Seus louvores, contemplamos Suas glórias, honramos Seu nome. Se as verdadeiras igrejas falham em Lhe dar a Sua porção, de onde Ele poderá recebê-la? Com certeza não nos ajuntamentos ritualistas na Cristandade. Quando o espírito de adoração começa a enfraquecer numa igreja podemos ter certeza que já começou o declínio, e a não ser que este for logo contido, conseqüências terríveis virão.
No Santo do Santos do Tabernáculo havia apenas um móvel — a arca. Apesar de estarmos considerando-a por último, ela era talvez a mais importante peça de todas. Sobre ela aparecia a nuvem, dela Deus falava com Moisés, nela havia o propiciatório e os querubins da glória, e uma vez por ano o sumo sacerdote comparecia perante ela. Ela simboliza a presença de Deus, lembrando-nos assim daquilo que já enfatizamos, que a igreja é, na verdade, o lugar onde a presença de Deus é conscientemente sentida. Não pode ser o Seu santuário se Ele não estiver ali, e se não desfrutarmos da Sua presença, o serviço que prestamos não tem valor. Há um aspecto solene a esta verdade que deve ser compreendido por todos — a presença do Senhor é terrível! A devida reverência é necessária nos ajuntamentos do Seu povo. A igreja em Corinto sofreu as tristes conseqüêcias pelo seu comportamento inadequado na presença dEle, pois alguns sentiram a Sua mão disciplinadora. Que tal Pessoa sublime se digne de habitar no meio de uma companhia simples de santos, muitos dos quais tirados das camadas mais baixas da sociedade, é uma maravilha que foge à nossa compreensão. É muito animador, porém, lembrarmos que, mesmo após quase dois mil anos, as igrejas ainda podem desfrutar da mesma presença e poder que eram conhecidos das igrejas nos dias do Novo Testamento. Seus locais de reunião podem não possuir a grandeza e habilidade artística dos homens, mas tendo manifestações do Espírito, com ordem divina e reconhecendo o Senhorio de Cristo, estas igrejas não perdem em nada para as igrejas modelo plantadas pelos apóstolos. Como qualquer outro testemunho dado aos homens, as igrejas têm muito de que se envergonhar, e não têm razão para o orgulho. Aliás, para muitos a maravilha é que Deus, na Sua fidelidade, ainda se digna de ter Seu nome indentificado com elas. Em relação ao número daqueles que professam ser salvos, são um mero remanescente. Apesar de tudo isto, não há nenhum outro exemplo nas Escrituras além do exemplo deixado pelos apóstolos no início desta era. Alguns ensinam que, devido à confusão na Cristandade, é impossível ter um testemunho unido hoje, mas no decorrer dos séculos os servos fiéis de Deus sempre retornaram aos primeiros princípios, e Ele sempre Se agradou em honrar a obediência deles.
O transporte do Tabernáculo
Diferentemente do Templo, com seus imensos alicerces de pedra e suas paredes sólidas, o Tabernáculo era uma estrutura móvel que poderia ser desmontada e reerguida em relativamente pouco tempo. A responsabilidade deste serviço foi colocada por Deus nas mãos dos Levitas. Assim como deu instruções quanto à sua construção, assim Ele determinou como seria seu transporte. Enquanto o povo de Israel marchava ele permanecia na mesma posição entre as tribos que ocupava quando estavam acampados, e assim ele mantinha a ordem nas fileiras dos israelitas.
Sua mobilidade tem lições para nós hoje. Nenhum israelita poderia olhar para o Tabernáculo sem lembrar que o deserto não era o seu lar. Cada prego, cada tábua, tudo lhe dizia que ele deveria estar pronto para marchar a qualquer instante. A igreja, o santuário de hoje, é igualmente um testemunho do nosso caráter peregrino. O mundo não é nosso lar, pois aguardamos uma cidade, como Abraão antigamente. Por todos os lados há um deserto que não contém nada digno de atrair o interesse da aristocracia dos céus. Poucos, talvez, entendem a relação íntima entre caráter peregrino e o testemunhos das verdadeiras igrejas. Há pouca possibilidade de que permanecerão fiéis ao ensino das Escrituras sobre a igreja local aqueles que afundam seus alicerces aqui na Terra e fazem das coisas terrenas seu principal interesse. Não — materialismo e as verdades sobre a igreja são incompatíveis. Cada ajuntamento dos santos, cada lembrança do Senhor, cada tentativa de servi-Lo são novas lembranças de que a Sua vinda está próxima, e nossa estadia na Terra pode terminar a qualquer momento. Ninguém pode negar que aqueles que desprezam o valor da igreja local, e não querem a vergonha de colocar-se fora do arraial, são normalmente caracterizados por materialismo.
Cada nova mudança do Tabernáculo não apenas trazia os israelitas mais perto do prometido descanso, mas também exigia o serviço daqueles que eram responsáveis pelo seu transporte. Muitos já têm comparado as três famílias dos Levitas — os Gersonitas, os Coatitas e os Meraritas — com os três principais dons existentes hoje em dia. Os Meraritas e seus carros carregados com pesadas tábuas e bases nos lembram dos evangelistas, que lançam o alicerce da obra; os Gersonitas, com as coberturas e menos carros, nos falam dos pastores e seu cuidado pelo rebanho, ao passo que os Coatitas, sem carros, mas carregando os móveis em seus ombros, nos lembram dos ensinadores que sabem colocar em ordem os tesouros espirituais na casa de Deus. Disto podemos aprender que todo verdadeiro serviço precisa estar relacionado com a igreja — seja no início de um novo testemunho, seja na edificação e desenvolvimento de um testemunho já existente. Serviço e adoração jamais devem ser separados.
Enquanto eram carregados, o Tabernáculo e seus utensílios ficavam geralmente cobertos. Os carros eram cobertos, e todos os móveis, com excessão da arca e da pia, eram cobertos com peles de texugos. Assim a beleza e glória do Tabernáculo ficavam escondidos dos olhos humanos. A cobertura externa da arca era azul, tornando-a assim bem destacada enquanto ela liderava o povo em marcha. Não há nenhuma menção de alguma cobertura para a pia, portanto não podemos afirmar se era coberta ou não. A arca indo na frente nos sugere que em todos os avanços da igreja Cristo deve ter o primeiro lugar. A pia descoberta (se assim era) nos mostram que as Escrituras devem permanecer abertas para a investigação de todos.
Nunca houve dúvida entre Israel sobre onde armar o Tabernáculo no deserto, pois a coluna de nuvem erguendo-se da arca, e provavelmente estendendo-se como um imenso guarda-chuva sobre a congregação, determinava cada novo lugar de repouso. Era tanto o abrigo quanto o guia do povo. Feliz é a igreja que avança sob a direção divina, trazendo luz e bênçãos aos que estão nas trevas. A igreja em Tessalônica deve ser imitada, pois era conhecida por proclamar a Palavra a todos em redor. Todos sabemos que se almas não forem congregadas à igreja ela tornar-se-á estagnada e morta, e se territórios novos não forem alcançados a obra de Deus será limitada no seu crescimento.
Que estas poucas sugestões sobre o Tabernáculo sirvam para ajudar todos que estão reunidos ao nome do Senhor a valorizar ainda mais sua posição, e para mostrar a todos os demais que Deus ainda tem, na Terra, um lugar de testemunho, que Ele se digna de chamar de Seu santuário.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Principal Ocupação de um Discípulo- T.Austin-Sparks

No Novo Testamento o povo do Senhor é designado de diversas maneiras que acabaram se tornando as formas pelas quais os cristãos são conhecidos. A maior parte dessas designações provém dos próprios cristãos, mas há duas exceções. O nome 'cristão' derivou de uma troça (troça – ato de zombar). Os habitantes de Antioquia gostavam muito de dar nomes a todo mundo e acharam que este era um título bastante adequado para essas pessoas; assim, começaram a chamá-los "cris¬tãos". Também houve outra palavra que tornou-se mais comum, e, embora não fosse uma auto-designação, veio a ser aquela pela qual eles foram conhecidos, acima de todas as demais.

As várias designações, como sabemos, eram: Discípulos, Crentes, San¬tos, Irmãos, Povo do Caminho; e Jesus os chamou de 'Meus Amigos'.

Assim, temos estes seis diferentes títulos para o povo do Senhor, e cada um deles era usado incorporando e expressando alguma idéia especial. Ao colocar o Senhor Jesus no centro, vemos que todos estes títulos indicam que Seu povo está agregado em torno dEle. Ao Seu redor estão os discípulos, os crentes, os santos, os irmãos, o povo do Caminho e todos a quem Ele chama 'Meus Amigos'.

Vamos nos deter principalmente no primeiro desses títulos, e talvez não consigamos passar dele.

O primeiro título, então, é 'Discípulos'. Esta designação tem uma implicação dupla. Há um aspecto que diz respeito às pessoas e outro que diz respeito ao Senhor. Quanto àqueles que eram chamados discípulos, subentendia-se simplesmente que eram aprendizes. O título deriva de uma palavra grega que significa 'aprender', mas que também inclui a idéia de um elemento ativo, resultando em algo mais que o mero conhecimento intelectual: significa colocar em prática aquilo que se aprendeu. Assim, discípulos eram pes¬soas que aprendiam e praticavam o que haviam aprendido.

É interessante observar que esta designação do povo do Senhor aparece trinta vezes no livro dos "Atos dos Apóstolos”. Isso quer dizer que o termo continuou após a partida de Jesus e indicava que eles ainda estavam aprendendo e colocando em prática. Freqüentemente pensamos em discípulos como algo relacionado ao Senhor Jesus apenas enquanto Ele estava aqui; mas o termo 'discípulo' prossegue por muito tempo após a partida de Jesus deste mundo. De fato, continua até hoje, e eu gostaria que percebêssemos que estamos aqui, neste momento, como discípulos: aqueles que estão aprendendo do Senhor Jesus com o objetivo de colocar em prática aquilo que aprenderam. Isso é o que essa designação significa, no que diz respeito a nós. Devemos ser os discípulos de Cristo agora.

Por outro lado, essa designação tem urna implicação concernente ao Senhor Jesus. E claro, simplesmente significava, e ainda significa, que Ele é o Mestre, Aquele de quem precisamos aprender tudo. Esse nome foi-lhe dado freqüentemente enquanto Ele estava aqui, de quatro formas diferentes: Professor; Rabi; Raboni; e Mestre. Como você deve se lembrar, Ele foi designado por esses quatro títulos. As pessoas se dirigiam a Ele como 'Professor' - Nicodemos disse: "Sabemos que és Professor vindo da parte de Deus" (Jo 3:2). Mas Ele era um Professor diferente dos de¬mais. Ele não era um professor de es¬colas, pois Seu ensino era espiritual e não acadêmico. Mas o nome 'Professor' contém algo de muito importante e rico. Desta vez vamos estar bastante ocupados com o Evangelho de João, porque é lá que aprendemos mais pro¬fundamente sobre o significado do Senhor Jesus. A expressão 'conhecer' ocorre cinqüenta e cinco vezes nesse Evangelho e ela diz respeito ao professor e seus discípulos. É perfeitamente claro neste Evangelho que o assunto é 'conhecer', pois tudo gira em torno de conhecimento, e que Jesus é o Professor espiritual.

Além disso, a frase 'a verdade' ocorre vinte e cinco vezes nesse Evan¬gelho. A que se refere a palavra 'conhecer'? "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8:32). Então 'a verdade', mencionada vinte e cinco vezes, está relacionada com 'conhecer', que ocorre cinqüenta e cinco ve¬zes.

Há uma outra expressão relacionada com estas duas: 'A luz', que ocorre vinte e três vezes. 'Conhecer a verdade pela luz' é o assunto do Evangelho de João e, de fato, descreve a escola dos discípulos.

Tudo isso está conectado com o título 'Professor'.

O nome 'Rabi' é empregado exclusivamente para o Senhor Jesus. No Evangelho de Marcos Ele é chamado 'Rabi' três vezes, no de Mateus quatro, mas esse título não aparece no Evangelho de Lucas. Veremos o porquê daqui a pouco. Em João, Jesus é chamado de 'Rabi' oito vezes, mais do que nos outros três Evangelhos juntos, por onde fica bastante claro qual é realmente o objetivo de João.

'Raboni' não ocorre com freqüência. É uma forma intensificada de 'Ra¬bi'. Você deve estar lembrado que Maria Madalena exclamou 'Raboni' no jardim, na manhã da ressurreição, quando Jesus voltou-se para ela e disse 'Maria'. Simplesmente significa 'o grande Professor' e somente é empregado no Evangelho de João.

Mas por que Lucas não utilizou esse título 'Rabi'? No seu Evangelho, o Senhor Jesus é designado por um quarto título, mais do que Ele o é em todos os demais. O título favorito de Lucas, neste particular, é 'Mestre', e ao lembrarmos do objetivo de seu Evangelho, que é apresentar Jesus como o próprio Homem perfeito, podemos entender porque ele preferiu esse título. Jesus é o Homem Mestre, e o que Lucas queria dizer era: 'Somos todos servos desse Homem'.

Tudo o que eu disse até agora visa introduzir este assunto de discipulado e mostrar que a grande ocupação dos cristãos é aprender a Cristo. Não se trata meramente de um assunto a ser estudado. Gostaria de perguntar-lhe: Qual é o maior desejo de sua vida? Gostaria de saber se é o mesmo que o meu! O maior desejo em meu coração (e quanto mais vivo, mais ele cresce) é entender o Senhor Jesus. Há tantas coisas a Seu respeito que eu não compreendo. Sempre enfrento problemas relacionados a Ele, os quais não são absolutamente problemas intelectuais, mas espirituais: problemas de coração. Por que o Senhor Jesus diz e faz certas coisas? Por que Ele está lidando comigo da maneira que Ele o faz? Ele é sempre muito profundo para mim, e eu quero entendê-Lo. O que há de mais importante na vida é entender o Senhor Jesus. Estamos aqui para que Ele possa nos levar a uma maior compreensão dEle mesmo. O material não será novo; será a antiga e bem conhecida Escritura. Talvez pensemos que conheçamos o Evangelho de João muito bem. Bem, talvez você conheça, mas eu não. Estou descobrindo que este Evangelho contém verdades e valores mais profundos do que conheço, e espero que o Senhor nos faça ver isso à medida em que prosseguimos.

Isso diz respeito aos discípulos, que são aprendizes, mas e quanto ao próprio Mestre? Qual é Seu assunto? Todo professor tem um assunto. Alguns ensinam teologia, outros ciência, ou filosofia, ou artes, ou engenharia, ou várias outras coisas. Qual é o assunto do Senhor Jesus?

(Gostaria que cada um pudesse ir para seu quarto e escrever sua resposta num pedaço de papel, e acho que seria muito interessante ler mais tarde todas as respostas!)

Entretanto, a resposta é: Ele mes¬mo. Ele é Seu próprio assunto. Jesus sempre foi o tema do Seu próprio ensi¬no. Ele relacionou tudo a Si próprio. Ele disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (10 14:6); "Eu sou o bom pas¬tor" (Jo 10:14); "Eu sou o pão da vida" (Jo 6:48); "Eu sou a porta" (10 10:9); "Eu sou a ressurreição e a vida" (Jo 11:25). Ele é o Seu próprio tema. Ele falou sobre vários assuntos, mas relacionou tudo a Si mesmo. Ele falou muito sobre Seu Pai, e podemos chegar a ver algo daquilo que Ele ensinou sobre o Pai, porém Ele sempre relacionou o Pai consigo mesmo e Ele ao Pai. Ele disse: "Eu e o Pai somos um" (Jo 14:9). Ele falou bastante sobre o Espírito Santo, mas sempre O relacionou a Si mesmo. Ele falou muito sobre o homem, mas sempre o relacionou a Si. Seu título favorito para Si mesmo era 'Filho do Homem'. Ele falou bastante sobre vida, mas sempre relacionoua a Si e nunca pensou em vida à parte dEle mesmo. Ele falou muito sobre luz, verdade e poder, mas sempre relacionado consigo mesmo. Ele era o próprio tema do Seu ensino.

Mas vamos ver que Jesus introduziu uma completa revolução na manei¬ra de ensinar a Si próprio. Não há qualquer dúvida de que Jesus criou uma revolução. É claro, algumas pessoas não aceitaram, pois era revolucionário demais para elas. Mas outras disseram:

"Jamais alguém falou como este Homem” (Jo 7:46). E é-nos dito a Seu respeito que "... [Ele] os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas" (Mc 1:22). Ele introduziu uma completa revolução, mas o fez colocando o foco sobre Si mesmo, através do que Ele disse a Seu próprio respeito. Ele estava sempre falando sobre Si, e é o único no mundo que tem o direito de fazer isso. Nós estamos aqui hoje por¬que Ele teve o direito de falar a Seu próprio respeito.

Então a grande ocupação dos discí¬pulos é conhecê-Lo, e fazer aquilo para o que Ele os chamou: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim" (Mt 11 :29). Jesus veio trazer conhecimento celestial de Sua própria pessoa e, na Sua pessoa, entramos nesse conheci-mento celestial. Não é meramente o que Ele diz; é o que Ele diz que é.

O verdadeiro mestre não é o que apenas diz muitas coisas, mas aquele que, ao falar sobre algum assunto, expressa algo de si mesmo. Você teve professores na escola, assim como eu também tive vários nos meus anos letivos. Alguns me ensinaram (ou tenta¬ram) isso, aquilo ou aquilo outro; podia ser aritmética, língua inglesa, ou algum dentre vários outros assuntos. Espero ter aprendido algo daquelas muitas coisas que meus professores falaram; mas dentre todos eles, um se destaca na minha memória. Ele disse muitas coisas, mas também me deu algo de si mesmo. Eu poderia dizer dele: 'Ele não apenas falou; ele deixou uma impressão. Ele deixou algo comigo. Eu o recordo, não pelo seu assunto, mas por ele mesmo. Ele fez diferença na minha vida'. E esse é o tipo de Mestre que Jesus é. Ele não apenas diz coisas, ou ensina assuntos. Seus temas eram ma¬ravilhosos, como vimos: o Pai, o Espírito, vida, e assim por diante; mas Jesus expressou mais do que palavras. Quan¬do as pessoas O ouviam, diziam: "Ja¬mais alguém falou como este Homem". Ele causou uma impressão nas suas vidas e eles a levaram consigo. Posteriormente, é nos dito: "...se lembraram das suas palavras" (Lc 24:8). Algo havia penetrado no mais profundo de suas vidas e eles foram capazes de dizer: 'Eu não apenas aprendi certas verdades de Jesus, mas algo do meu Mestre foi implantado na minha vida. Fui influenciado por Ele'. Jesus disse: "As palavras que vos tenho dito são espírito e vida" (Jo 6:63). Isso é algo mais do que palavras.

A questão que abrange e governa todo o aprendizado é este: Por que o Senhor Jesus veio a este mundo? É claro, você poderia responder a isso com alguns fragmentos das Escrituras. Você poderia dizer: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" (I Tm 1:15). Isso está nas Escrituras e é inquestionavelmente verdadeiro. Ou poderia dizer: "O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido" (Lc 19:10), que é igualmente verdadei¬ro. Há outras várias passagens como essas que parecem responder à pergunta, mas precisamos colocar todas juntas e ainda assim não temos a resposta completa. Há ainda muitos outros as¬pectos! Devemos abordar o assunto em dois passos, e o primeiro é, na realidade, um grande passo.

O nascimento de Jesus em Belém não foi o nascimento do Filho de Deus. Ele não iniciou Sua existência ao entrar neste mundo: Ele estava com Seu Pai antes mesmo que este mundo existisse. Ele disse: "Glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de Ti, antes que houvesse mundo" (Jo 17:5). Ele estava com o Pai desde a eternidade. Se você for capaz de fixar a data das primeiras palavras da Bíblia, então você conhece a resposta. Talvez você esteja se perguntando por que é que estou dizendo isto. Porque é neste ponto que o Evangelho de João inicia, e você nunca será capaz de entender o Senhor Jesus a menos que comece por esse ponto: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus" (Jo 1:1). É aí que o ensino se inicia. Oh, temos chegado a uma grande escola! É a Escola da Eter¬nidade. Vamos ver mais tarde como isso se aplica a nós. É uma das coisas que espero que possamos aprender. Mas por ora, vamos apenas observar que Jesus não teve início ao vir a este mundo.

O outro passo é: Sua vinda a este mundo em forma humana está definitivamente relacionada com a espécie humana. Ele não anulou Sua divindade, mas assumiu a forma humana, o que significa que Sua vinda estava vitalmente conectada com a vida humana. 'Não é para os anjos: é para os homens'. Ele veio como Homem, para os homens, a fim de ensinar homens. Deus estava em Cristo, mas em forma humana, para fazer algo no homem: não apenas pelo homem, mas no homem. Deus poderia ter feito tudo pelo homem sem ter vindo em forma humana, mas a fim de fazer algo no homem Ele deveria vir na forma de um homem.

A resposta completa à nossa pergunta, então, é: Jesus veio para trazer na Sua própria Pessoa tudo aquilo que o homem deveria ter, mas nunca teve. Deus pretendia que o homem tivesse algo que até então nunca tivera. Ele deixou de tê-Io devido à desobediência e nunca possuiu o que Deus pretendera. E o homem, sendo o que era, nunca poderia possuí-Lo, de forma que era necessário haver um outro tipo de Homem, que pudesse trazer essas coisas ao homem.

Vamos repetir: a resposta à nossa pergunta é simplesmente isto. Jesus veio trazer na Sua própria Pessoa tudo aquilo que Deus pretendia que o homem tivesse, mas que ele nunca teve. É por isso que o ensino de Jesus sempre esteve unido aos Seus atos. Você já percebeu isso? Depois de Jesus dizer algo, Ele fazia alguma coisa para provar o que dissera; Ele nunca disse algo a Seu respeito sem fazer alguma coisa que o comprovasse. Ele disse: "Eu sou a luz do mundo" (Jo 9:5)? Então Ele abriu os olhos a um cego de nascença. Ele disse: "Eu sou a ressurreição e a vida" (Jo 11 :25)? Então Ele ressuscitou a Lázaro dentre os mortos. Dessa forma, Ele sempre unia Suas palavras a Seus atos, Suas obras a Seus ensinamentos. Ele não apenas dizia coisas, mas ao dizer Ele fazia. Este ainda continua a ser Seu método, e é o que você e eu precisamos entender. Espero que possamos aprender isso nestes dias, e que não sejam apenas palavras, mas as obras do Senhor Jesus acompanhando as palavras.

Neste ponto, uma observação pode ser de ajuda. Há algo de muito incomum neste Mestre. Você já prestou atenção no tipo de discípulos que Ele escolheu? Por que o Senhor escolheu aquele tipo de discípulos? Que tipo de pessoas eram eles? Não eram grandes eruditos daqueles dias, nem homens com graus universitários. Acho que podemos dizer que, como um todo, eram pessoas cujas condições e cérebros eram pobres. Eles freqüentemente não compreendiam o que Ele dizia, ou não conseguiam perceber o ponto central. Eles viviam esquecendo aquilo que Ele Ihes havia dito, e, posteriormente, Ele precisava recordá-Ios, ou trazer essas coisas de volta a eles pelo Espírito Santo. A descrição de Paulo dos cristãos de Corinto se encaixa bem nesses discípu¬los: "...não foram chamados muitos sábios segundo a carne, ... nem muitos de nobre nascimento ... Deus escolheu as coisas loucas do mundo ... Deus escolheu as coisas fracas do mundo..." (I Co 1:26,27). Bem, o mundo não funciona dessa maneira. Se você fosse um Pedro, um Tiago ou um João, você não teria nenhuma chance de ocupar uma posição neste mundo. Por que Ele escolheu estes homens? Porque havia neles espaço em abundância para aquilo que Ele veio trazer. Eles não estavam satisfeitos nem eram fortes. Em certo sentido, eles Lhe deram uma excelente oportunidade de implantar neles o que não tinham. As pessoas nos dias de Cristo que já tinham tudo, nunca conseguiram nada. Você sabe o quão verdadeiro isso é! Os fardos retornam vazios e os vazios retornam fartos. Isso é algo que devemos aprender!

Uma das coisas que precisamos deixar no vale quando subimos ao monte é nossa ignorância. Você dirá: "Ignorância significa: eu não sei", mas pense um pouco melhor. Qual é a marca registrada da ignorância? É: 'Eu já sei isso tudo'. Não é verdade? As pessoas que realmente são ignorantes são as que pensam que sabem tudo.

Lembro-me de uma certa senhora. Não professo ser um grande mestre, mas a cada sentença que eu falava ela dizia: 'Eu sei! Eu sei!' Não haveria nenhum problema se sua vida provasse que ela sabia; mas só provava que ela não sabia, e essa querida senhora não podia ser ajudada por causa do: 'Eu sei! Eu sei!' A marca da ignorância é conhecer tudo, e é uma das coisas que devem ser deixadas lá embaixo quando subi¬mos ao monte. Devemos ser ensináveis, vazios, fracos, tolos aos nossos próprios olhos, tão somente nada. A Escola de Jesus Cristo está repleta de pessoas como essas e é por isso que Ele escolheu aqueles homens.

Possamos nos lembrar que somos Seus discípulos e ainda temos tudo a aprender. Na realidade, entendemos muito pouco o Senhor Jesus, mas Ele está entre nós como Raboni, nosso grande Professor, e eu creio que irá se revelar a nós se nossos corações estiverem abertos a Ele.


A Natureza Da Vida Divina - "Eu vim para que tenham vida" (Jo 10:10)

Vamos nos voltar para o Evangelho de João, por vermos que este é o Evangelho da educação espiritual. Os outros apresentam amplamente a história da vida, a obra e o ensino terrenos do Senhor Jesus, mas o Evangelho de João é a vida e interpretações espirituais de Cristo en¬quanto Pessoa. Você já notou como o Evangelho se inicia? É com as palavras: "Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens" (Jo 1:4). A seção principal do Evangelho finda com estas palavras: "Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que crendo tenhais vida em Seu nome" (Jo 20:30,31). (Note que o capítulo 21 foi adicionado posteriormente. É bastante claro que João tencionava terminar com o capítulo 20, e ele realmente o fez com essas palavras.) O Evangelho começa com: "Nele estava a vida". E termina com: "Para que tenhais vida". O principal Evangelho inclui vinte capítulos, e a metade de vinte é dez. No capítulo 10, versículo 10, temos: "Eu vim para que tenham vida".

O início: "Nele estava a vida"; o meio: "Eu vim para que tenham vida"; o fim: "para que crendo tenhais vida". Em uma única palavra, 'vida', temos a resposta completa à nossa pergunta: 'Por que Jesus Cristo veio a este mundo?'

Note duas coisas: todos os ensinamentos e obras do Senhor Jesus estão relacionados com aquilo que Ele chamou de vida. Todo Seu ensino e Suas obras estão conectados a vida.

O segundo ponto a notar é: Jesus demonstrou que possuir essa vida é um milagre, e mostrou que é impossível possuí-Ia sem um milagre. Vir a ser possuído por esta vida é algo sobrenatural.

E o terceiro ponto a notar é este: É revelado na Palavra de Deus que pos¬suir esta vida é a base para todas as obras de Deus. Ele não pode fazer nada em nós a menos que tenhamos esta vida. Ele permanece longe e diz: 'Não posso fazer nada enquanto a minha vida não estiver em você'. Sua vida em nós é a base para toda Sua obra.

Agora vamos examinar o Evangelho de João para sermos instruídos nessa matéria da vida.

Note de novo o que diz o capítulo 20: "Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais... ". Observe 'diante dos discípulos'. Para todos os efeitos, João disse: 'Todos esses sinais que Jesus fez Ele os fez na presença dos Seus discípulos'. Isso porque era a Seus discípulos que Ele estava ensinando. Eram eles os que tinham que aprender o significado desses sinais, porque eles deviam dar continuidade à Sua obra. Podemos assumir que Jesus nunca efetuou um milagre sem que Seus discípulos estivessem presentes. Se havia uma grande obra a ser feita, Ele olharia a Seu redor para ver se os discípulos estavam ali. Ele não estava fazendo aquelas coisas apenas para benefício da multidão, embora ela tenha obtido algum benefício, como no caso dos cinco mil sendo alimentados. Mas estas coisas visavam a educação dos discípulos. Jesus exerceu grande cuidado para que eles viessem a enten¬der o significado daquilo que Ele estava fazendo. Veremos o quão importante isso é.

Espero que, quando uso a palavra discípulo, seu pensamento não retroceda dois mil anos! Eu acho que a maioria das pessoas aqui, se não todas, são dis¬cípulos: aqueles que estão aprendendo a Cristo. Assim como a principal ocupação dos discípulos naqueles dias era aprender a Cristo, assim também, é nossa principal ocupação hoje. O que há de mais importante para os cristãos é aprender a Cristo.

Voltando uma vez mais àqueles dois versículos no final do capítulo 20, eu gostaria de chamar sua atenção para três palavras: Em "fez Jesus... muitos outros sinais" note a palavra "sinais" . Em "Estes, porém, foram registrados para que creiais" note a palavra "creiais". E em 'para que crendo tenhais vida em Seu nome' note a palavra "vida" . Sinais, crer, vida. A totalidade deste Evangelho se resume nestas três palavras, e vamos considerá-Ias por al¬guns minutos.

Primeiramente: sinais . A totalidade do ensino do Evangelho de João gira em tomo de sete sinais, sete sinais especialmente selecionados. João diz: 'fez Jesus... muitos outros sinais', e que se todos eles fossem escritos "nem no mundo inteiro caberiam os livros" (Jo 21:25). Deve ter havido muitos outros sinais, mas João selecionou sete e reuniu neles a totalidade do assunto de aprender a Cristo.

Há quatro palavras empregadas para 'milagres' no Novo Testamento. Em alguns lugares são denominados 'maravilhas', e isso expressa a idéia de algo bastante incomum, extraordinário, uma coisa maravilhosa. Em outros, são denominados 'poderes', que expressa a idéia de energia espiritual, sobrenatural. E ainda em outros, são denominados 'paradoxos', que, como sabemos, é uma contradição. Eram denominados assim porque contradiziam a ordem natural das coisas. Mas a quarta palavra para 'milagres' é a que João sempre escolhe e é a palavra favorita para o termo. Ele sempre os denomina 'sinais', que significa que essas obras indicavam algo mais do que elas mesas. A obra não era apenas algo em si mesmo: havia um significado por trás dela. Ele queria dizer alguma coisa. Havia uma obra concreta, mas ela possuía um significado espiritual e era um sinal de algo a mais. Essa é 11 palavra de João para" milagre" .

Vamos deixar este assunto por um momento posteriormente voltaremos a ele.

A segunda palavra: crer . Esta é a palavra chave para todo o Evangelho de João e ocorre nele noventa e oito vezes. Tudo neste Evangelho gira em torno desta palavra: "para que creiais" . Mas o que a palavra "crer" significa? Duas coisas intrínsecas a ela mesma. Significa o reconhecimento da verdade, isto é, a reação que diz: "Isto é verdadeiro”, ou "Ele é verdadeiro", "Eu creio que Ele é verdadeiro”. Mas significa mais do que isso. A palavra em grego quer dizer: "Crendo que é verdadeiro, você se entrega Àquele que o disse" . João coloca de outra maneira em certo lugar: "... a todos quantos O receberam..." (Jo 1:12). Esta é apenas uma maneira alternativa de dizer: "Eles se entregaram a Ele”. Crer não é meramente uma questão mental: é a entrega da vida Àquele em quem você crê. Em certa ocasião eu ouvi o Dr. Billy Graham explicando o assunto de uma forma muito simples. Eu estava assentado na plataforma, bem atrás dele, e, como vocês sabem, ele é fisicamente um homem bastante grande. Ele se colocou em pé naquela plataforma e disse: "Bem, ao subir a esta plataforma, eu não pisei e perguntei: será que ela vai me agüentar, ou será que, se eu subir, ela vai desabar e eu cairei junto? Eu tenho tal confiança nesta plataforma que simplesmente subi e me entreguei a ela. Não tenho nenhuma dúvida quanto a esta plataforma. Lancei todo o meu peso sobre ela" . Ele prosseguiu dizen¬do: "É isso o que o Novo Testamento quer dizer por crer no Senhor Jesus Cristo". "Para que crendo...", isto é, entregando-se ao Senhor Jesus.

Agora nossa terceira palavra vida , e isto nos trás ao ponto central da nossa consideração. Os sinais foram os instrumentos utilizados pelo Senhor Je¬sus; o crer foi a reação dos homens aos sinais, e a vida foi o resultado da sua reação. Eles se entregaram e receberam vida.

Vamos examinar esta vida. O que é? Qual é sua natureza e o que ela significa? Eu creio que não há necessi¬dade de lembrar que este é um tipo de vida que ninguém tem, a menos que possua o Senhor Jesus. A própria pala¬vra que é empregada para vida aqui é diferente das outras palavras para vida. Não é a vida animal nem a humana, mas a divina, que está em Deus apenas. É uma vida diferente de todas as demais, porque contém uma natureza diferente. Todo tipo de vida tem sua própria natureza; e a vida divina tem em si a natureza divina. Pedro fala em sermos feitos "co-participantes da natureza divina" (II Pe 1:4), e com esta vida a própria natureza de Deus é implantada em nós. É uma natureza diferente da nossa. Também vamos nos deter nisso.

Mas, lembre-se, "Nele estava a vida" (Jo 1:4). Em natureza, é Ele diferente dos demais homens? Todos podem ver que, em Sua própria natureza, Ele é diferente dos outros homens, e o que faz a diferença é essa vida que está nEle. Esta vida traz consigo uma consciência nova e diferente. Olhe para o Senhor Jesus! Qual era a Sua real consciência? Isso era algo sobre o que Ele sempre falava, e era extremamente evidente no Seu caso. Ele disse: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10:30); "faço sempre o que lhe [o Pai] agrada" (Jo 8:29);

"As obras que faço em nome de meu Pai" (Jo 10:25). Oh, esta palavra 'Pai' no Evangelho de João!

A consciência de Jesus Cristo todos os dias era da Sua união com Seu Pai, a unidade que existia entre Eles: "como és Tu, ó Pai, em mim e Eu em Ti" (Jo 17:21). A cons¬ciência do Senhor Jesus era a da mais próxima união com Deus como Seu Pai, e isto era porque a própria vida de Deus estava nEle. Sua vida era uma vida de consciência de Deus; mas consciência de Deus no sentido de perfeita unidade. E é isso que significa possuir esta vida. O homem nunca havia tido isso e Jesus veio para trazê-Io na Sua própria Pessoa: não para falar sobre união com Deus, mas para viver uma vida de união com Deus e levar Seus discípulos à mesma união. "Eu vim para que tenham vida”, em outras pala¬vras: 'Eu vim para que tenham a mesma consciência de Deus como Pai que Eu tenho e para que tenham em si mesmos a mesma natureza divina que Eu tenho'. (Não divindade, mas natureza.).

Esta vida tem outro significado. A vida deve sempre crescer. Você sabe muito bem disso! Seja o tipo de vida que for se é vida real, deve crescer. Você vê isso tanto no seu jardim quanto em seres humanos. A lei da vida é cons¬tante desenvolvimento. Isso foi verdadeiro no Senhor Jesus. É nos dito a Seu respeito que "[Ele foi] aperfeiçoado por meio de sofrimentos" (Hb 2:10) e a palavra "aperfeiçoado" significa .. completo" . Ele foi completo, amadu¬recido, através de sofrimentos. "Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu" (Hb 5:8). Jesus crescia pelo poder desta vida nEle, e se possuímos esta vida, devemos crescer. Paulo diz: "Para que não mais sejamos como meninos...mas...cresçamos em tudo" (Ef 4:14,15)... "Até que todos cheguemos...à perfeita varonilidade, à medida da plenitude da estatura de Cristo" (Ef 4:13). Assim, possuir esta vida significa, na realidade, que devemos crescer; e se não o estamos, há algo de errado conosco. Agora note estas coisas: uma natureza diferente, uma consciência dife¬rente, um relacionamento diferente, e um constante crescimento.

Podemos ver como estes aspectos são ilustrados neste Evangelho. Nicodemos procurou a Jesus de noite. Vamos pensar em Nicodemos como sendo um homem perfeitamente honesto. Muitas coisas foram ditas a seu respeito que não contam a seu crédito, mas eu acredito que ele era um homem muito sincero. Ele veio e se dirigiu a Jesus como "Professor". "Sabemos que és Professor vindo da parte de Deus" (Jo 3:2). Para que ele havia procurado a Jesus? Evidentemente ele estava ali para conversar sobre o reino de Deus, porque o Senhor Jesus leu seus pensamentos. Ele sabia que Nicodemos estava interessado no reino de Deus, mas o que Ele lhe disse, em outras palavras, foi: "Você nunca entrará no reino de Deus a menos que tenha a vida de Deus. Você e Eu nem mesmo podemos falar sobre o reino de Deus porque não temos a mesma vida. Como você pode obter esta vida? Você precisa nascer de novo, e, se isso nunca ocorreu, você não está vivo". Então fica bastante claro que Nicodemos não tinha a natureza do rei¬no de Deus porque não tinha a vida. Para qualquer de nós poder entrar no reino de Deus, precisamos receber a vida de Deus, que é Sua própria natureza.

Também dissemos que é uma consciência diferente. De que forma bela é isso ilustrado pela mulher samaritana! Pobre mulher, ela queria conhecer o segredo da vida. Ela o havia perdido; tentava encontrá-Io, mas nunca conseguiu. Tudo o que ela tinha era uma pobre existência! Jesus começou a falar sobre vida com ela e, na realidade, disse: 'A água que eu te der será água viva em você, jorrando para a vida eterna. Quando você tiver a vida que Eu posso dar, a vida que está em Mim, então você descobrirá o segredo da vida'. E quanto a essa nova consciência? Uma seção inteira do Evangelho de João está devotada a ela. De um lado está Jesus sozinho, do outro, os líderes judeus. Eles estão em dois mundos diferentes e os líderes judeus não entendem a Jesus. Quão diferentes eles são! Jesus coloca o dedo no ponto central da diferença. Ele fala de Deus como Seu Pai. Ele Ihes diz: 'Vocês não conhecem o Pai'... "Vós sois do diabo que é o vosso pai" (Jo 8:44) ... 'Eu vim do alto, Deus é Meu Pai'. Ele tinha a consciência de Deus como Seu Pai, o que eles não tinham; e a razão disso era porque eles não possuíam essa vida dentro deles.

E quanto ao assunto de constante desenvolvimento? Há uma bela ilustra¬ção disso no Evangelho de João, no capítulo 12, onde Jesus diz: "Se o grão de trigo caindo na terra não morrer fica ele só" ...fica ele só... "mas se morrer produz muito fruto " (Jo 12:24). A nova vida que vem em ressurreição significa que a semente se multiplica a cem por um. Não há fim para o seu desenvolvimento, uma vez que a vida de ressurreição entrou nela. Há um constante desenvolvimento pelo poder desta nova vida, e isso é uma lei da vida.

Caros amigos, todas estas coisas devem ser verdadeiras em você e em mim, porque é isto o que significa possuir esta nova vida. Espero que o que foi dito contribua para que seja bastante real o fato maravilhoso que Jesus Cristo veio a este mundo nos dar. Na sua Epístola, João diz: "Aquele que tem o Filho tem a vida" (I Jo 5:12). Se temos o Senhor Jesus, então possuímos esta vida, e o que esta vida é, com respeito a todas essas coisas, deve ser verdadeiro em nós. Este é o milagre da vida eterna. Que possa ser verdadeiro em cada um de nós! Temos o Filho e temos a vida; sabemos que temos a vida e que, como dissemos, a estamos tendo com maior abundância, o que significa que a vida deve crescer para sempre.

Autor: T. Austin-Sparks

Irmãos em Cristo Jesus.

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Mt 5:14 "Vós sois a luz do mundo"