domingo, 12 de abril de 2009

Deus predestinou o Homem para a Perdição? - H.L.H

Extraído do site http://www.verdadesvivas.com/
Haveis sentido, até certo ponto, inquietação porque alguém tem afirmado que não é possível ter-se a certeza da salvação neste mundo por não poder saber-se se tem sido eleito.
Pois bem, pode-se responder a uma tal afirmação com a Bíblia. A Palavra de Deus diz: Para que todo aquele que crê não pereça mas tenha a vida eterna (João 3.16). Se Deus, pois, fala verdade, isso pode saber-se. Ninguém negará que Deus tem dito a verdade.
A alguém que falava da mesma maneira, perguntei uma ocasião se julgava que o apóstolo Paulo havia estado com Deus afim de deitar uma vista de olhos ao Seu livro de desígnios. O que naturalmente ele negou. Prossegui com outra pergunta: Como pode então ele escrever aos Tessalonicenses: Sabendo, amados irmãos, que a nossa eleição é de Deus (I Tess.1.4), e como é que em todas as suas epístolas chama aqueles a quem escreve, santos? E ele, então, não teve resposta para dar-me; porém no dia seguinte acercou-se a mim e disse: “Agora eu também sei que estou salvo”.
De fato, a Palavra de Deus fala claramente de predestinação. Qual o filho de Deus que, meditando em Efésios 1.4,5; Romanos 8.29,30; 1 Pedro 1.2, não tem motivo para bendizer a Deus por uma tal graça?


PREDESTINAÇÃO

Infelizmente o homem não se manteve no que estava escrito na Palavra de Deus, mas antes permitiu que o seu entendimento fosse mais além, afim de tirar conclusões lógicas, assim chamadas. O resultado a que chegou foi fazer afirmações que estão contra a Palavra de Deus e que na realidade constituem uma desonra para o Seu nome. O ensino da predestinação de todos os homens é uma caricatura do quadro glorioso da eleição que nos oferece a Palavra de Deus.
Diz a doutrina da predestinação que Deus predestinou uns para a eterna salvação, mas que decidiu rejeitar outros. É bom lermos os versículos de Romanos 9.8-23, que falam claramente do assunto.


GRAÇA NÃO SÓ PARA OS JUDEUS

Nos primeiros oito capítulos da Epístola aos Romanos encontramos descrita a condição do homem e a resposta de Deus. O homem está perdido sem nenhuma esperança. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus (Rom 3.23,24). Mas se fossem todos salvos somente sobre a base da graça, então ela não se limitaria aos Judeus. Então a graça seria também para as nações que não são judaicas.
Isto, porém, não queriam os judeus. Eles ocupavam um lugar de privilégio e queriam mantê-lo. Por isso a sua grande inimizade é manifestada sempre que o mesmo evangelho é pregado aos Gentios (veja Atos 13.45-50; 15.1; 17.5; 28.25-29).
Em Romanos capítulos 9 a 11 o apóstolo trata da questão de harmonizar a igualdade entre os Judeus e os Gentios a respeito do Evangelho de acordo com a posição especial que Deus havia dado aos Judeus.


A SEMENTE DE ABRAÃO

O primeiro argumento invocado pelos Judeus foi que eram a semente de Abraão. Bem, diz o apóstolo, então tereis de reconhecer também a Ismael, visto que também era filho de Abraão. E se neste caso se pode inferir que a mãe de Ismael era apenas escrava, Esaú era também o pai dos Árabes. Jacó e Esaú tinham o mesmo pai e a mesma mãe, e nasceram ao mesmo tempo. Não obstante, Esaú, ainda que era o maior, não foi o patriarca do povo de Deus. E isto não porque Jacó era melhor. Já antes do seu nascimento Deus havia dito que o maior serviria o menor.
Assim, vemos, aqui, que os Judeus não tinham recebido esta posição com base no direito, mas com base na soberania de Deus. Se eles tivessem apelado para os seus direitos, então teriam também de reconhecer os Árabes como povo de Deus somente com base na soberania de Deus; não tinha Deus o direito de abençoar também outros? Vemos também que não é uma questão de predestinação ou rejeição para a eternidade, mas somente segundo a sua posição privilegiada na Terra.
As palavras do versículo 13 as quase sempre usadas como prova da doutrina da rejeição. Quem o faz confunde os versículos 12 e 13. O que está escrito no versículo 12 é o que Deus realmente havia dito antes de os meninos haverem nascidos, mas não antes da fundação do mundo, como está escrito a nosso respeito em Efésios 1.4. Aqui trata-se de uma posição terrena, e isto anunciou-o Deus imediatamente antes do nascimento (versículo 10). Mas o versículo 13 é extraído de Malaquias 1. E Deus disse isto aproximadamente mil e quatrocentos anos depois da vida de Jacó e Esaú - depois de haver sido vista a sua vida e a dos seus descendentes. Em Hebreus 12.16,17 Esaú é chamado devasso e profano, que por um manjar vendeu o seu direito de primogenitura e não achou lugar para arrependimento. É de admirar que Deus haja dito deste homem que o aborreceu? Aborreces a todos os que praticam a maldade (Salmo 5.5).
Então chegamos ao versículo 15: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem me tiver misericórdia. Esta passagem é tirada de Êxodo 33.19, o povo tinha levantado o bezerro de ouro e rejeitado o Senhor(Êxodo 32.4). Merecia o juízo (Êxodo 32.10); porém Moisés orou por eles. Então Deus manifesta uma vez mais a Sua graça e poupa o povo. Estas palavras mostram a evidência que Deus Se reserva o direito de dispensar graça, até mesmo quando o castigo é merecido. Israel era o povo de Deus somente sobre o fundamento da graça. Mas como podem estas palavras ser uma prova da doutrina da rejeição?
O versículo 15 estabelece o princípio da graça. Onde todos estão debaixo do juízo só a misericórdia de Deus pode dar o escape. Se a partir de hoje um homem não pecasse mais (caso pudesse fazê-lo!) que lhe aproveitaria isso? Ainda assim teria que submeter-se ao juízo por aqueles pecados que tivesse antes cometido.


DEUS ENDURECE ALGUNS HOMENS

O versículo 17 é uma citação de Êxodo 9.16, Deus disse a Faraó que endureceria o seu coração para manifestar-lhe todo o Seu poder, mas temos de ler o que está escrito antes, em Êxodo 5.2 onde Faraó disse: Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei para deixar ir Israel? Não conheço o Senhor, nem tão pouco deixarei ir Israel. Em seguida torna mais pesado o serviço do povo (Êxodo 5.17). Apesar de todos os sinais e juízos que Deus enviou, Faraó não obedeceu à vontade do Senhor. Então Deus diz: Agora endurecerei o teu coração para que todo o peso do meu juízo caia sobre ti.
Deveras o Senhor havia dito anteriormente que o faria (Êxodo 4.21), pois sabia antecipadamente que Faraó não escutaria, conhecia o coração de Faraó (Êxodo 3.18). Porém não foi antes de haver falado a Faraó várias vezes e de lhe haver mandado bastante sinais e pragas, e de Faraó haver dito que deixaria ir o povo, faltando cada vez à sua palavra, que Deus lhe endureceu o coração (Êxodo 9.12). E é então que Ele diz estas palavras. É uma verdade solene que Deus às vezes endurece os corações! Fê-lo à Faraó. Fá-lo às vezes no tempo presente. E, em breve, depois do arrebatamento da Assembléia, fá-lo-á a todos os que têm ouvido o Evangelho, mas não o têm aceitado (II Tess.2.11). Porém, Deus nunca endurece os corações antes de ter dado aos homens oportunidade para se converterem (Jó 33.14-30). Isso é muito diferente do que diz a doutrina da rejeição.


DEUS É SOBERANO EM SEUS ATOS

Romanos 9.19-21 trata principalmente desta questão. Deus não tem o direito de fazer com as Suas criaturas o que Ele quer? Se Deus quisesse fazer de um homem um vaso para a honra e de outro um vaso para desonra, não teria o direito disso? Pode uma criatura pedir contas ao Criador? Deus, como Criador, tem o direito de fazer com as Suas criaturas o que quer. Tem o direito de dar graça a um e destinar outro para o castigo eterno. Mas o versículo 21 não tem feito uso deste último direito. Deus é luz e amor e nunca está em contradição Consigo mesmo.
O versículo 21 fala disto. Faz-se alusão a Jeremias 18. Ali Deus indica o Seu direito de fazer com Israel o que quer. O oleiro faz do barro um vaso, mas quando ele se quebra, faz do mesmo barro outro.
Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez o oleiro, ó casa de Israel? Diz o Senhor: eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.
Se alguém se arrepende de sua maldade Deus se arrependerá do juízo que pensava executar e lhe mostrará graça. Para isso Deus serve-Se da Sua soberania!


OS VASOS DA IRA PREPARADOS PARA PERDIÇÃO!

Romanos 9.22,23 mostra o mesmo princípio; apesar de ser usado muitas vezes como uma grande prova a favor da doutrina da rejeição, na realidade esta passagem é a maior prova contra essa doutrina.
O versículo 22 fala dos vasos da ira preparados para a perdição. Quem os preparou? Não é dito aqui. Mas, que Deus não o fez parece ser claro do contexto. Poderia dizer-se que Deus os suportou com muita paciência se Ele mesmo os tivesse preparado para a perdição? Veja-se também a diferença com o versículo 23, onde efetivamente está escrito que Ele tem preparado de antemão os vasos de misericórdia que já dantes preparou. É claro que os vasos da ira se prepararam a si mesmos. Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente entesouras ira para ti, no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus Rom 2.5.


A PALAVRA DE DEUS
DESCONHECE A PREDESTINAÇÃO PARA REJEIÇÃO

Nas Escrituras não há nem uma só evidência de que Deus haja tomado uma decisão para rejeição, nem de que haja destinado determinadas pessoas para a perdição eterna. Pelo contrário, isto está em contradição com o que Deus tem revelado de Si mesmo na Sua Palavra.
Pode ser que Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e que deu Seu Filho Jesus Cristo em resgate por todos afim de que todos pudessem participar Dele, tenha destinado uma parte deles para a perdição eterna? E assim há muitas passagens sobre o assunto, como por exemplo João 3.16, Romanos 3.22, I João 2.2, etc...
Graças a Deus, pobres pecadores foram predestinados para a glória eterna. Mas em nenhuma parte da Palavra de Deus se fala de eleição para condenação. Em contrapartida, a Palavra de Deus diz: E quem quiser tome de graça da água da vida (Ap 22.17). Deus nosso Salvador,...quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (I Tim 2.4).
E se não podemos reconciliar estes dois lados da verdade: vida e o convite feito a todos para virem: os meus pensamentos são mais altos do que os vossos pensamentos Is 55.9. Qual o homem que ousaria atrever-se a pensar que o seu intelecto podia compreender e julgar a sabedoria e os desígnios de Deus? Para a fé resta o que Abraão havia dito: Não faria justiça o juiz de toda a terra? (Gen 18.25).
Vosso irmão em Cristo.
H.L.H.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Calvinismo e Arminianismo- C. H Mackintosh

O erro de uma teologia torcida que mostra um só lado da verdade
C. H. Mackintosh


Extraído do site www.verdadespreciosas.com.ar e Traduzido para o Português pelos irmãos da cidade de Alegrete-RS

Há pouco temos recebido uma longa carta que proporciona uma mui surpreendente prova dos desconcertantes efeitos de uma teologia torcida que mostra um só lado da verdade, e que pretende ser a verdade completa. Nosso correspondente se acha evidentemente sob a influência do que se denomina «a alta escola de doutrina». Em conseqüência, não pode ver o correto de chamar aos incrédulos a que «venham», a que «ouçam», a que «se arrependam» ou a que «creia». Para ele é como dizer a uma árvore silvestre que produza doces maçãs a fim de que se converta em uma macieira.

Pois bem, cremos plenamente que a fé é dom de Deus, e que ela não é conforme a vontade do homem nem por seu poder. Além disso, cremos que nenhuma alma virá jamais a Cristo se não for atraída, forçada, pela graça divina a fazê-lo; portanto, todos os que são salvos tem que dar graças a Deus por sua graça livre e soberana a respeito. Seu cântico é, e sempre será: «Não a nós, oh Senhor, não a nós, senão a teu Nome damos glória, por tua misericórdia, e por amor a tua verdade.»

E nós cremos nisto, não como parte de um determinado sistema de doutrina, senão como a verdade revelada de Deus. Mas, por outro lado, também cremos, e de igual maneira, na solene verdade da responsabilidade moral do homem, posto que a Escritura o ensina claramente, ainda que não o encontremos entre o que se denomina «os cinco pontos da fé dos escolhidos de Deus».

Cremos nestes cinco pontos, até onde estão escritos; mais muitíssimo longe de abranger toda a fé dos escolhidos de Deus. Há extensas áreas da revelação divina que nem remotamente são contempladas, e nem sequer mencionadas, por este sistema teológico defeituoso e mal desenvolvido. Onde achamos o chamamento celestial? Onde está a gloriosa verdade da Igreja como corpo e esposa de Cristo? Onde está a preciosa esperança santificadora da vinda de Cristo para receber aos seus nos ares? Onde vemos que o vasto campo da profecia se abra à visão de nossas almas no que tão pomposamente tem vindo a chamar-se «a fé dos escolhidos de Deus»? Em vão buscaremos a menor aparência dele em todo o sistema com o qual nosso amigo está vinculado.

Pois bem, poderíamos supor por um momento que o bendito apóstolo Paulo aceitaria como «a fé dos escolhidos de Deus» um sistema que exclui o glorioso mistério da Igreja da qual ele foi feito ministro de uma maneira especial? Suponhamos que alguém houvesse mostrado a Paulo «os cinco pontos» do calvinismo como uma declaração da verdade de Deus, o quê haveria dito? O quê?«Toda a verdade de Deus»; «a fé dos escolhidos de Deus»; «todo aquilo que é essencial para a fé»!; mas nem uma sílaba acerca da verdadeira posição da Igreja, de seu chamamento, de sua esperança e de seus privilégios!

Tampouco se faz nenhuma menção do futuro de Israel! Vemos uma completa ignorância ou, no melhor dos casos, um despojamento das promessas feitas a Abraão, Isaque , Jacó e Davi. Os ensinamentos proféticos em seu conjunto são relegadas a um sistema espiritualizante ou alegorizante —falsamente assim chamado— de interpretação, mediante a qual a Israel se priva de sua própria porção, e os cristãos são rebaixados a um nível terreno; e isto nos é apresentado com a elevada pretensão de ser «a fé dos escolhidos de Deus»!

Graças a Deus que ele não é assim! Ele —bendito seja seu Nome— não se tem confinado dentro dos estreitos limites de nenhuma escola teológica, alta, baixa ou moderada. Têm se revelado a si mesmo. Tem declarado os profundos e preciosos segredos de seu coração. Tem feito manifestos seus eternos conselhos com respeito à Igreja, a Israel, aos gentios e a toda a Criação. Os homens se quiserem podem tratar de confinar o vasto oceano dentro de um balde que eles mesmos tem formado, da mesma maneira que pretendem confinar a vasta classe da revelação divina dentro dos débeis cercos dos sistemas de teologia humanos. Não é possível fazer isto, nem se deveria intentar fazê-lo. É muitíssimo melhor deixar de lado os sistemas teológicos e as escolas de teologia, e vir, qual um menino, à eterna fonte da Santa Escritura, para beber dela os vivos ensinamentos do Espírito de Deus.

Nada é mais nocivo para a verdade de Deus, mais dessecante para a alma nem mais subversivo para o crescimento e o progresso espiritual que a mera teologia, já alta ou calvinista, já baixa ou arminiana. É impossível que a alma progrida mais além dos limites do sistema com o qual está relacionada. Caso se me ensinam a considerar «os cinco pontos» como «a fé dos escolhidos de Deus», não me interessará olhar mais além deles; e então um glorioso conjunto de verdades celestiais ficará vedado a minha vista. Ficarei atrofiado e estreito de visão, com uma visão meramente parcial da verdade. Correrei perigo de cair nesse estado de alma fria e endurecida que resulta de estar ocupado com meros pontos de doutrina ao invés de estar com Cristo.

Um discípulo da alta escola de teologia —ou calvinista— não quer ouvir acerca de um Evangelho para o mundo inteiro; do amor de Deus ante o mundo; das boas novas para toda criatura debaixo do céu. Ele só tem conseguido um Evangelho para os escolhidos. Por outro lado, um discípulo da baixa escola —ou arminiana— não quer ouvir acerca da eterna segurança dos que crêem. Sua salvação —alegam— depende em parte de Cristo e em parte deles mesmos. Conforme a este sistema, o cântico dos redimidos deveria sofrer uma modificação: No lugar de cantar simplesmente: «Digno é o Cordeiro», deveríamos adicionar: «E dignos somos também nós.» Podemos ser salvos hoje, e nos perder amanhã. Tudo isto desonra a Deus, e priva ao cristão de toda paz verdadeira.

Ao escrever assim não pretendemos ofender ao leitor. Nada estaria mais distante de nossos pensamentos. Não estamos tratando com as pessoas, senão com escolas de doutrina e sistemas de teologia, procurando com toda veemência que nossos amados leitores consigam abandoná-los de uma vez para sempre. Nenhum sistema teológico compreende toda a verdade de Deus. Todos, é verdade, contém certos elementos de verdade; mas a verdade sempre resulta anulada pelo erro; e mesmo quando achemos algum sistema que, no que vai dele, não contenha mais que a verdade, contudo, se não compreendesse toda a verdade, seu efeito sobre a alma seria pernicioso, porquanto levaria a uma pessoa a se vangloriar de ter toda a verdade de Deus, quando, na realidade, o que tem não é mais que um sistema humano que não considera mais que um só lado da verdade.

Além disso, é raro encontrar um só discípulo de qualquer escola de doutrina que possa enfrentar a Escritura em seu conjunto. Sempre citarão certos textos preferidos que serão reiterados continuamente; mas não se apropriará de uma vasta porção da Escritura. Tome-se, por exemplo, paisagens tais como os seguintes: “Mas Deus... agora manda a todos os homens em todo lugar, que se arrependam” (Atos 17:30). “O qual quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade” (1.ª Timóteo 2:4). “O Senhor...é paciente para conosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos procedam ao arrependimento” (2.ª Pedro 3:9). E, na última página do inspirado Volume, lemos: “E o que quiser, tome da água da vida gratuitamente” (Apocalipse 21:17).

Temos de tomar estas passagens tal como estão ou temos de introduzir palavras que modifiquem seu sentido de maneira a adaptá-los a nosso particular sistema teológico? O fato é que os tais põem de manifesto a grandeza do coração de Deus, as ações de sua natureza de graça e o vasto aspecto de seu amor. Não é conforme o amante coração de Deus que nenhuma de suas criaturas pereça. Não há tal coisa na Escritura como certos decretos de Deus que relegam a um determinado número de homens à eterna condenação [2] . Alguns podem ser judicialmente entregues à cegueira por seu deliberado recusar da luz (veja-se Romanos 9:17; Hebreus 6:4-6; 10:26-27; 2.ª Tessalonicenses 2:11-12; 1.ª Pedro 2:8). Mas todos os que perecem, só jogarão a culpa em si mesmos; enquanto que os que alcançam o céu, darão graças a Deus.

Se temos de ser ensinados pela Escritura, devemos crer que todo homem é responsável conforme a sua luz. O gentio é responsável de ouvir a voz da Criação. O judeu é responsável sobre a base da lei. A cristandade é responsável sobre a base de uma revelação completa que se acha contida em toda a Palavra de Deus. Se Deus manda a todos os homens em todo lugar, que se arrependam, quer dizer o que afirma, ou simplesmente se refere a todos os escolhidos? Quê direito temos de adicionar, alterar, recortar ou acomodar a Palavra de Deus? Nenhum!

Tomemos a Escritura tal como está, e recusemos tudo o que não possa resistir a prova. Bem podemos por em dúvida a solidez de um sistema que não é capaz de suportar toda a força da Palavra de Deus em seu conjunto. Se as passagens da Escritura parecem contraditórias, só nos parecem por causa de nossa ignorância. Reconheçamos humildemente isto, e esperemos em Deus para uma luz maior. Isto, bem podemos estar seguros disso, é o firme terreno moral que devemos ocupar. Ao invés de tratar de reconciliar aparentes discrepâncias, inclinemo-nos aos pés do Mestre e justifiquemo-nos em todos os seus ditos. Assim colheremos abundantes frutos de bênçãos, e cresceremos no conhecimento de Deus e de sua Palavra em conjunto.

Uns poucos dias atrás, um amigo pôs em nossas mãos um sermão que havia sido pregado recentemente por um eminente clérigo pertencente à alta escola de doutrina. Temos achado neste sermão, igual à carta de nosso correspondente, os efeitos de uma teologia torcida que mostra um só lado da verdade. Por exemplo, ao se referir a essa magnífica declaração de João o Batista, em João 1:29, o pregador a cita da seguinte maneira: «Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado de todo o mundo do eleito povo de Deus.»

Mas na passagem não diz nenhuma só palavra acerca do «eleito povo de Deus». Refere-se à grande obra propiciatória de Cristo, em virtude da qual toda traça de pecado será apagada de toda a criação de Deus. Nós veremos a plena aplicação desse bendito texto da Escritura somente no novo céus e na nova terra, nos quais mora a justiça. Limitar a passagem ao pecado dos escolhidos de Deus, só pode ser considerado como fruto do prejuízo teológico, que torce a verdade.


NOTAS

[1] N. do T.— Na cristandade há dois sistemas teológicos ,duas escolas de pensamento, antagônicos, cujos nomes devem sua origem àqueles que formularam pela primeira vez suas idéias: Arminianismo (de Armínio, teólogo protestante holandês) e calvinismo (de João Calvino, reformador francês). Cada um cita um grupo de textos bíblicos com o fim de sustentar sua postura. O arminianismo, baseado em um grupo de passagens, afirma que o homem é responsável de crer, mas deduz dessa responsabilidade uma capacidade própria dentro do homem para ir a Cristo, definindo que o homem tem a faculdade de auto determinação (o que na filosofia se denomina «livre arbítrio»). Enquanto que a escola contrária —o calvinismo— se apóia em outra série de textos para fazer basear tudo na soberania de Deus, o qual é certo, mas seu erro consiste na eliminação total da responsabilidade do homem. Estendendo suas deduções lógicas, o calvinismo cria assim uma teoria de «reprovação dos incrédulos pelo decreto eterno de Deus», e não pela própria responsabilidade dos que se perdem. Se pode ler pelo mesmo autor o artigo «La responsabilidad moral del hombre ante Dios y su falta de poder», que é muito útil para esclarecer tão importante e solene assunto da responsabilidade do homem e de sua total incapacidade.

[2] N. do A.— É muito interessante notar a maneira em que a Escritura nos previne contra a repulsiva doutrina da reprovação. Vejamos, por exemplo, Mateus 25:34. Aqui, o Rei, ao se dirigir aos de sua direita, lhes diz: “Vinde, benditos de meu Pai, herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo.” Em contraste com isto, ao se dirigir aos da esquerda, lhes diz: “Apartai-vos de mim, malditos [notemos que não diz ‘de meu Pai’], ao fogo eterno preparado [não para vós, senão] para o diabo e seus anjos.” O mesmo podemos apreciar no capítulo 9 da epístola aos Romanos. Ao Falar dos “vasos de ira” (v. 22), diz: “preparados para destruição”, não preparados por Deus seguramente, senão por si mesmos. Mas quando menciona os “vasos de misericórdia”, diz: “que ele preparou de antemão para glória” (v. 23). A grande verdade da eleição é plenamente estabelecida; mas o repulsivo erro da reprovação é cuidadosamente evitado.

Irmãos em Cristo Jesus.

Irmãos em Cristo Jesus.
Mt 5:14 "Vós sois a luz do mundo"