sábado, 16 de fevereiro de 2008

TODA ARMADURA DE DEUS -2ª PARTE- Vicent Cheung

7. O ESCUDO DA FÉ

Chegando agora ao verso 16 da nossa passagem, Paulo introduz o escudo da fé: “Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno”. A palavra traduzida por “escudo” aqui é a palavra grega thyreon, e A. Skevington Wood escreve o seguinte:
Thyreon é derivado de thyra (uma porta) e refere-se ao grande quadrilongo ou ao escudo protetor oval do soldado romano, mantido na frente dele para proteção. Ele consistia de duas camadas de madeira coladas juntas, cobertas com linho e couro, e envolvidas com ferro. Os soldados freqüentemente lutavam lado a lado, com uma parede (testudo) sólida de escudos. Mas, mesmo um combatente sozinho encontrava-se a si mesmo suficientemente protegido. Após o cerco de Dyrachium, Sceva contou não menos do que 220 dardos cravados em seu escudo. Para o cristão, este escudo protetor é a fé (pistis).[1]
A questão é se “fé” aqui, refere-se à crença subjetiva do cristão ou ao conteúdo objetivo do Cristianismo. Wood responde, “Mas o crer não pode ser divorciado daquilo que se é crido, e nenhuma linha rígida deveria ser traçada entre estes dois aspectos”. [2] Mas a declaração de Wood não trata o assunto corretamente. Mesmo se o crer não possa ser divorciado do que é crido, o que é crido pode deveras ser distinguido do que deve ser crido. Isto é, a crença subjetiva do cristão não está sempre de acordo com o conteúdo objetivo do Cristianismo. Certamente, neste caso, o que é “usado” pela pessoa não é, no sentido exato, “o escudo da fé, mas alguma outra coisa, e o verdadeiro escudo permanece no chão, por assim dizer.
Já estabelecemos anteriormente que cada peça da armadura representa a doutrina bíblica que corresponde a ela. Mas então, isto significa que cada peça da armadura refere-se ao conteúdo objetivo do aspecto da fé cristã que ela representa, e não a crença subjetiva do indivíduo sobre o assunto. Isto é, o escudo da verdade refere-se à própria verdade, e não ao comprometimento do cristão à ela. Da mesma forma, a couraça da justiça representa a doutrina bíblica sobre o assunto, mas não implica por si mesma a percepção subjetiva do indivíduo dela. Paulo certamente não está dizendo aos seus leitores para “vestir suas crenças subjetivas”, visto que, antes de mais nada, as crenças subjetivas de alguém nunca são “tiradas”! Antes, seu ponto é que o cristão deve deliberadamente “vestir” algo que ele pode ou “vestir” ou “despir” –– isto é, algo que tenha existência e validade objetiva, independentemente das crenças subjetivas do indivíduo.
Ele está chamando seus leitores a tomarem posso e identidade com as doutrinas bíblicas representadas por estas peças da armadura. A verdade é verdade por si só, quer alguém concorde com ela ou não; contudo, ela não beneficiará alguém que não estrutura seus pensamentos e ações de acordo com ela. O conteúdo do evangelho permanece o mesmo se uma pessoa compreende somente uma pequena fração dele, mas quando ele se coloca em estudo e treinamento intensivo, e permite que o evangelho governe sua conduta diária, ele torna-se alguém que está preparado para avançar o reino de Deus. Da mesma forma, o escudo da fé pode representar muito pouco o conteúdo objetivo da fé cristã, mas ele só protegerá aquele que o toma e o coloca diante de si.
Sobre o ataque demoníaco contra a igreja, Wood escreve, “Mas, no contexto de Efésios, eles parecem ter deliberadamente tentado destruir a unidade do corpo de Cristo” (3:14-22; 4:1-16, 27) através da invasão de doutrinas falsas e fomentação de dissensão (4:2, 21, 31, 32; 5:6)”.[3] Paulo instrui os filipenses a serem “de mesma mente” (Filipenses 2:2, NASB), e que eles deveriam “com uma só mente” estar “lutando juntos pela fé do evangelho” (1:27, NASB). Uma igreja pode dificilmente ser “de mesma mente” se seus membros não concordarem sobre o conteúdo do evangelho, e quando as doutrinas falsas controlam as mentes de muitos cristãos professos. Divisão e heresia impregna a igreja hoje, pois ela negligencia o estudo da teologia e apologética bíblica.
As falsas doutrinas são como “setas inflamadas”, rapidamente espalhando destruição. Mas o escudo da fé pode “apagar todas as setas inflamadas do Maligno”. Se o escudo da fé refere-se ao conteúdo da fé cristã, então, usá-lo significa aprender e afirmar o conteúdo da Escritura. Aqueles que entendem completamente e afirmam fortemente as doutrinas bíblicas são capazes de resistir e sobrepujar as falsas idéias que são lançadas no seu caminho. Embora isto requeira força e disciplina, para tomar este escudo e mantê-lo diante de nós, seu uso é, algumas vezes, notadamente simples, especialmente quando o usamos para impedir ataques contra as nossas mentes:
Embora Paulo não dê exemplos individuais destas setas inflamadas, Hodge menciona pensamentos horríveis, blasfemos, cépticos e sugestões mais sutis de cobiça, descontentamento e vaidade. Estas, ou tudo o mais que a figura de linguagem possa representar, são extintas pela fé. Os pensamentos maus devem ser desalojados e expelidos por pensamentos bons. Se no meio de problemas duvidamos do poder ou da sabedoria de Deus, deveríamos dizer para nós mesmos, 'Eu creio em Deus, o Pai Todo-Poderoso', ou repetir alguns versos que falam da Sua amorosa bondade. Assim, as doutrinas da fé expelirão as falsas idéias. [4]
Que o escudo da fé e as setas inflamadas são intelectuais e doutrinárias em natureza, produz certas implicações, a saber, “Já deveríamos ter estudado ou memorizado algumas porções da Escritura, para termos algo para lembrar. Este estudo é, antes de mais nada, como erguer o escudo”. [5] Aquele que é fraco no entendimento bíblico e teológico não tem levantado o escudo da fé, e deveras não pode fazer até que ele tenha aprendido o básico da teologia e da apologética. Até então, ele tem pouca proteção contra as falsas idéias que vêm contra ele. Uma vez que um membro da igreja é prejudicado ou contaminado por falsas doutrinas, o dano pode se espalhar rapidamente, se não averiguado, pois “um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5:9). É importante para os líderes da igreja ensinar o seu povo, de forma que eles se tornem hábeis no uso do escudo da fé (Hebreus 5:13-14; Efésios 4:11-16).
Assim, levantar o escudo da fé não é somente uma questão de vontade, mas também de entendimento. Não é somente uma questão de volição, mas também de intelecto. De fato, o entendimento intelectual das doutrinas bíblicas necessariamente precede o assentimento volitivo às doutrinas bíblicas, visto que a vontade não pode se comprometer a algo que nem mesmo existe ali. Se o escudo da fé representa o conteúdo objetivo da Escritura, então, a compreensão de um comprometimento volitivo à Escritura representa o ato de levantar. O tamanho grande do escudo é significante. O conhecimento da verdade é uma área que não pode oferecer proteção contra a falsidade e confusão na outra área. Portanto, levantar o escudo da fé implica obter um conhecimento compreensivo da Escritura.
8. O CAPACETE DA SALVAÇÃO
O capacete era “a parte mais ornamental da armadura primitiva”,[6] e Paulo usa esta peça atrativa da armadura para representar a salvação: “Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Charles Hodge escreve:
O que adorna e protege o cristão, que o capacita a levantar sua cabeça com confiança e alegria, é o fato que ele está salvo. Ele é um dos redimidos, transladados do reino das trevas para o reino do querido Filho de Deus. Se ainda debaixo de condenação, se ainda alheio a Deus, um estrangeiro, um alienado, sem Deus e sem Cristo, ele não poderia ter coragem para entrar neste conflito. É porque ele é um cidadão dos santos, um filho de Deus, um participante da salvação do evangelho, que ele pode enfrentar os inimigos mais potentes com confiança, sabendo que ele será sempre mais do que vencedor através daquele que o amou. [7]
Em certo sentido, Deus revela Sua bondade a todos: “Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Mesmo aqueles hostis a Deus devem dependem constantemente de Seu sustento para a sua própria existência, “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Todos deveriam ser comovidos pela bondade de Deus, e, assim se arrependerem a Deus e crerem em Cristo. Mas sem a decisão soberana de Deus, eles não se arrependem e crêem, e nem o podem fazer; portanto, a bondade geral de Deus resulta na condenação eterna dos réprobos.
A Escritura nos mostra que a graça salvadora de Deus é revelada somente aos Seus eleitos –– Seus escolhidos –– e os ímpios não têm parte nela:
“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar” (Lucas 10:22).
“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:44).
“Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Efésios 1:4-6). [8]
Assim, a salvação distingue os cristãos do resto da humanidade. Os cristãos são o povo escolhido de Deus: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9). Todos os outros seres humanos são não-salvos, porque Deus não os escolheu.
O capacete pode representar a salvação do cristão de outro modo significante, além de sua atratividade, a saber, “Tomar é realmente receber ou aceitar (dexasthe). Os itens anteriores foram dispostos para o soldado apanhar. O capacete e a espada deveriam ser entregues a ele por um assistente ou por seu carregador de armadura. O verbo é apropriado para a 'inquestionabilidade' da salvação”. [9]
O capacete representa apropriadamente a salvação cristã, não somente por causa da sua atratividade, mas também por causa da maneira na qual o cristão o veste. Embora o adornar as outras peças da armadura dependa da volição do crente, a salvação é totalmente dependente de Deus. [10] Jesus lembra aos Seus discípulos: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (João 15:16). O cristão não deve se elogiar que ele tenha “aceito a Cristo”, [11] pois é melhor e mais sábio do que os incrédulos em si mesmo, quando na realidade foi Deus quem soberanamente o escolheu e aceitou: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”. A única razão de sermos capazes de amá-Lo é “porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Assim, no lugar de auto-congratulação e ostentação, deveríamos oferecer ação de graças a Deus, que nos escolheu e nos mostrou misericórdia, não por causa de qualquer prévia condição em nós, mas por causa da sua soberana vontade.
Com respeito a se há qualquer significação em a salvação ser representada por um capacete, alguns sugerem que “a metáfora refere-se a pureza de mente”, [12] mas outros dizem que isto pode ser “muito imaginativo”.[13] Para entender corretamente a passagem, não deveríamos aplica a metáfora de uma forma que exceda a intenção do escritor; contudo, mesmo que Paulo não enfatize explicitamente o intelecto com o capacete como uma metáfora, muitos elementos durante toda a passagem implicam em tal ênfase.
Por exemplo, verdade, justiça, o evangelho, fé (tanto em seu aspecto subjetivo e objetivo), salvação, e a palavra de Deus, implicam em conteúdo intelectual para ser entendido pela mente. Portanto, mesmo que fazer da salvação um capacete não seja em si mesmo uma tentativa de enfatizar a compreensão intelectual da soteriologia, a inclusão desta ênfase é inescapável. Em outro lugar, Paulo escreve, “[As Escrituras] são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15). A sabedoria salvadora vem de uma compreensão intelectual da Bíblia, aplicada às nossas mentes para efetuar conversão e santificação pelo Espírito Santo.
Temos derivado diversos pontos à partir da metáfora de que a salvação é como um capacete para o cristão. Primeiro, a salvação é “a parte mais ornamental” do Cristianismo, tanto que “até os anjos anseiam observar” (1 Pedro 1:12). Além disso, a fé com a qual afirmamos o evangelho não “não vem de nós mesmos, é dom de Deus”, para que “ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Em adição, é de extrema importância que obtenhamos uma profunda compreensão teológica da salvação, visto que somente então estaremos apropriadamente vestindo o capacete da salvação, que é capaz de nos proteger de numerosas falsas doutrinas que rodeiam o assunto.
9. A ESPADA DO ESPÍRITOA peça final da armadura é a espada, que representa a palavra de Deus: “Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Visto que a oração é mencionada no verso 18, algumas pessoas se perguntam se é ela que deve ser entendida como a peça final da armadura. Francis Foulkes responde, “A descrição do equipamento do cristão para o conflito não pode senão incluir a referência à oração”, mas baseado na própria passagem, a oração “não pode ser totalmente descrita como uma parte da armadura”.[14] Embora a oração seja relevante para o conflito espiritual, Paulo não parece incluí-la como parte da armadura. Assim, concluímos nosso estudo da nossa armadura espiritual examinando a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.
Nos tempos antigos, havia diversos tipos de espadas, variando em tamanho e peso; contudo, visto que Paulo está traçando suas metáforas à partir das armas dos soldados romanos, a “espada” pode se referir somente à “espada curta e reta dos soldados romanos”.[15] Isto é também indicado pelo uso da palavra grega machaira por Paulo, em oposição à palavra para a espada comprida, rhomphaia, como usada num verso como Lucas 2:35.
Alguns comentaristas observam que a espada é a única arma usada para o ataque na série da armadura descrita. De fato, a espada é tanto uma arma defensiva como ofensiva. Além do seu óbvio propósito de matar o inimigo, ela também serve para “desviar os golpes” [16] desferidos contra ele. A implicação dela ser uma espada curta é que a luta envolve encontros próximos com o inimigo, o que demanda o uso de uma arma relativamente leve e flexível.
Que esta espada é “do Espírito” (grego: tou pneumatos) não significa que somente que ela é de uma natureza espiritual (como em “espada espiritual”), mas também que a palavra, como mencionada previamente em conjunção com o capacete, “deveria ser entregue [ao soldado] por um assistente ou por seu carregador de armadura”, [17] e assim, a tradução de Barth, “a palavra providenciada pelo Espírito”.[18] A palavra é “do Espírito” no sentido de que ela é produzida e nos dada pelo Espírito Santo.
Nós encontramos algumas dificuldades quando chegamos ao ponto onde esta palavra é dita ser “a palavra de Deus”. Há três interpretações propostas, e visto que uma delas é obviamente falsa, nós a contestaremos primeiro.
A primeira visão ensina que as palavras da Escritura, particularmente aquelas “dadas” a pessoa pelo Espírito no momento, quando expressas através dos lábios crentes de um cristão, formam o que constitui uma palavra real ou figurada no reino espiritual, para infligir danos sobre as forças demoníacas.
Esta interpretação mística sugere que o poder da palavra do Espírito não reside no conteúdo intelectual da palavra de Deus, mas na força bruta que ela contém para sobrepujar o inimigo. Contudo, como Gordon Fee diz, “[Paulo] simplesmente não entendia a fascinação com 'palavra' que alguém encontra entre alguns carismáticos contemporâneos”. Esta visão em questão falha completamente em considerar “o modo como ele ordinariamente usa este tipo de linguagem”. [19]
A segunda visão reivindica que, visto que a palavra grega rhema é usada em “a palavra de Deus” como oposta ao logos, a palavra do Espírito deve então se refere a uma “palavra” dada no momento pelo Espírito Santo.
É verdade que podemos depender do Espírito Santo para trazer às nossas consciências, versos da Escritura que necessitamos para confrontar um pensamento, tentação ou argumento particular. Contudo, seria mais do que tolo pensar que, mesmo versos bíblicos obviamente relevantes são ineficazes contra um pensamento ou argumento anti-bíblico, a menos que eles sejam primeiro, de alguma forma, “despertados” pelo Espírito na hora. Mas esta tolice mística parece ser o que esta segunda visão declara ou implica.
O cristão obtém sua “espada” e torna-se hábil no uso dela durante o seu usual treinamento bíblico e teológico na igreja. Tendo se preparado, ele não deveria requerer uma palavra especial a ser lhe dada na hora quando ele estiver sob ataque, visto que ele já tem vários versos aplicáveis da Escritura, em sua mente. O cristão não deveria requerer qualquer unção especial do Espírito, antes de aplicar versos obviamente relevantes da Escritura à situação.
Esta segunda visão leva muito longe a alegada distinção entre rhema e logos, visto que uma “referência a uma concordância mostra que tanto esta palavra (rhema) como a palavra grega logos são freqüentemente usadas no mesmo sentido no Novo Testamento”. [20] Várias idéias falsas relatadas, que alguns cristãos crêem, podem ser traçadas à pregação popular excitada daqueles que têm aplicada as distinções alegadas entre duas palavras ao extremo, dando a impressão que, embora logos seja a palavra de Deus, ela é inútil e ineficaz até que seja “vivificada” pelo Espírito, e assim, alegadamente se tornando rhema. Este ensino é falso e anti-bíblico. Paulo escreve, “Toda a Escritura é soprada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16-17). Todo verso da Escritura é “soprado por Deus” –– “vivo” e eficaz em todos os tempos, mesmo sem qualquer unção especial passada a ele.
Dito isto, o uso da palavra rhema por Paulo tem realmente algum significado. Agora, Gordon Fee escreve:
Embora estas palavras sejam sinônimas próximos e, portanto, possam ser freqüentemente usadas de modo intercambiável, rhema tende a colocar a ênfase sobre o que é dito num determinado ponto, enquanto que logos freqüentemente enfatiza o conteúdo da “mensagem”.
Contudo, isto não leva à conclusão da segunda visão, como descrita cima. Fee continua:
Se esta distinção é sustentada aqui, então, Paulo está, quase que certamente, se referindo ainda ao evangelho, assim como ele o faz em Romanos 10:17, mas a ênfase é agora sobre a real “comunicação” da mensagem, inspirada pelo Espírito. Para colocar em termos mais contemporâneos, ao urgi-los a tomarem a espada do Espírito e então identificar esta espada com a “palavra de Deus”, Paulo não está identificando a “espada” com o livro, mas com a proclamação de Cristo, que, em nosso caso, é deveras encontrada no livro. [21]
Isto nos leva à terceira visão, que diz que a espada do Espírito não é outra coisa senão a publicação e aplicação das palavras da Escritura. Ela se refere ao intelectual e não ao místico. Das três visões listadas, esta é a única que reflete o significado e intenção da metáfora de Paulo sobre a espada do Espírito sendo a palavra de Deus.
Assim, o conteúdo derhema não é diferente do conteúdo de logos, embora em certos casos rhema possa denotar comunicação real do conteúdo. Sempre que as idéias cristãs e não-cristãs se confrontarem, o crente deverá estar preparado, não somente para manter sua posição, mas também para invadir e capturar o território do inimigo. Todo exemplo de interação oral ou escrita na qual o cristão defende as idéias cristãs e ataca as idéias não-cristãs é uma manifestação da palavra do Espírito. A expressão intelectual da palavra de Deus é o rhema de Deus; é uma palavra que vem do Espírito.
É mais do que tolo e anti-escriturístico pensar que devemos esperar até que o Espírito Santo “desperte” um verso da Escritura para nós, antes que possamos eficazmente responder a um argumento ou pensamento anti-bíblico, mesmo quando já sabemos como respondê-lo, a partir de nossos estudos anteriores da Escritura. Em vez disso, a própria Escritura mantém que todo verso bíblico é verdadeiro, eficaz, e “vivo” sempre (2 Timóteo 3:16; Hebreus 4:12). Você deve usar o que já sabe sobre a Escritura para combater o inimigo, antes do que pensar que tudo que você já sabe sobre a Escritura é inútil, até que uma parte dela seja “despertada” para sua situação particular. Isto significa que, se você sabe muito pouco, você será incapaz de eficazmente sobrepujar os ataques espirituais contra você. O remédio não é esperar por algum “despertamento” místico do Espírito Santo; antes, a única solução é um programa de intensa educação teológica (2 Timóteo 2:15).
Consideraremos agora um exemplo de como Jesus empunhou a espada do Espírito contra o diabo:
Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”. Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: “ ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’”.Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram.(Mateus 4:1-11)
Esta passagem ilustra como Jesus usa a palavra do Espírito para vencer a tentação. Em todos os três exemplos, ele traz e aplica citações diretas da Escritura para contra-atacar as palavras de Satanás.
No primeiro exemplo, ele cita Deuteronômio 8:3 para resistir ao diabo. Vendo como Jesus usa a Escritura para de defender a primeira vez, o diabo faz uma segunda tentativa e cita o Salmo 91:11-12, esperando enganar e persuadir a Cristo. Mas Jesus responde dizendo, “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”, citando Deuteronômio 6:16.
Todas as batalhas espirituais envolvem a autoridade e a aplicação da Escritura, e raciocínios e argumentos teológicos. Nesta segunda tentativa, Satanás cita uma passagem bíblica que, quando falsamente entendida e aplicada, parece permitir Jesus pular do templo. Mas Jesus nota que Satanás não tomou toda a Escritura em conta, assim, Ele diz, “Também está escrito” na Escritura que ninguém deve colocar Deus à prova, e assim, ele expõe o uso inapropriado de Satanás do Salmo 91:11-12.
Este breve exemplo produz várias implicações importantes. Por exemplo, a resposta que Jesus dá necessariamente assume a unidade da Escritura, que uma parte da Bíblia concorda com todas as outras partes, e que uma parte da Bíblia nunca contradiz qualquer outra parte. Disto temos deduzido um princípio hermenêutico que cristãos fiéis têm afirmado por um longo tempo. Em adição, como Jesus manuseou esta segunda tentação suporta fortemente a disciplina da teologia sistemática.
Manejar a espada do Espírito é apresentar e defender as verdades bíblicas e atacar as crenças não-bíblicas através de argumentos lógicos rigorosos baseados na Escritura. Portanto, o uso desta arma aplica-se à pregação, escrita, debates e conversas ordinárias nas quais a fé cristã deve ser apresentada e defendida, e as crenças não-cristãs atacadas e refutadas.
Tudo isto pode soar estranho àqueles que estão acostumados a ver a palavra do Espírito a partir de uma perspectiva mística, antes do que pensar nela como o ato de argumentar contra os inimigos do pensamento bíblico, ou defender a fé contra os seus ataques. Contudo, é realmente a atitude mística para com a espada do Espírito que é estranha ao pensamento bíblico. É muito perigoso se equivocar sobre a natureza e uso desta arma, ou de qualquer outra peça da armadura espiritual que Deus nos deu. Assim, contra a atitude mística, devemos insistir que a espada do Espírito se refere às apresentações e argumentos intelectuais cujos conteúdos e formas são derivados da Escritura. Matthew Henry escreve, “A palavra de Deus é muito necessária, e de grande uso para o cristão, para sua preservação na batalha espiritual e sucesso nela...com isto, assaltamos os assaltantes. Os argumentos da Escritura são os mais poderosos argumentos....”. [22]
A resposta de Cristo à segunda tentação de Satanás, mostra que a espada do Espírito avança do reino de Deus através de argumentação baseada na Escritura, cuja interpretação é governada pelo pensamento lógico. É pelo empunhar persistente da espada do Espírito desta maneira que saquearemos os territórios agora ocupados pelo diabo –– isto é, resgataremos as mentes dos eleitos e confundiremos as mentes dos réprobos (2 Coríntios 4:4-6, 10:3-5).
Exemplos da espada do Espírito sendo empunhada através de argumentação escriturística abundam no ministério de Paulo:
Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: “Este Jesus que lhes proclamo é o Cristo”. Alguns dos judeus foram persuadidos e se uniram a Paulo e Silas, bem como muitos gregos tementes a Deus, e não poucas mulheres de alta posição. (Atos 17:2-4)
Enquanto esperava por eles em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos. Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam. (Atos 17:16-17)
Todos os sábados ele debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos. Depois que Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou exclusivamente à pregação, testemunhando aos judeus que Jesus era o Cristo. (Atos 18:4-5)
Chegaram a Éfeso, onde Paulo deixou Priscila e Áqüila. Ele, porém, entrando na sinagoga, começou a debater com os judeus. (Atos 18:19)
Paulo é enfático sobre a natureza intelectual do nosso conflito com Satanás:
Pois, embora vivamos no mundo, não lutamos segundo os padrões do mundo. As armas com as quais lutamos não são do mundo; ao contrário, elas têm poder divino para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo. (2 Coríntios 10:3-5)
O diabo “cegou o entendimento dos incrédulos, para que não vejam a luz do evangelho” (2 Coríntios 4:4), e é o nosso propósito “destruir argumentos” que têm sido levantados contra a fé bíblica, e “levar cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”.
Retornando a Mateus 4, Jesus conclui seu encontro com Satanás:

Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto”. Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram. (Mateus 4:8-11)
Jesus sela a derrota de Satanás com a correta aplicação da Escritura, e sai vitorioso da tentação.
Alguém que empunha poderosamente a espada do Espírito é alguém que possui considerável conhecimento teológico e excelente poderes de raciocínio. Por outro lado, alguém que carece destes recursos espirituais pode nunca infligir muito dano ao reino das trevas. Portanto, prestemos atenção às palavras do apóstolo Paulo, que diz, “Seja diligente em apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15, NASB).

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Irmãos em Cristo Jesus.

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