domingo, 14 de setembro de 2008

A Mensagem à Laodicéia- W Kelly

O Caráter da Igreja dos últimos tempos, e o que Cristo pensa dela

“Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Apocalipse 3:14-22).


O Contraste com Filadélfia

Um acentuado contraste se adverte entre o estado de Sardes e da prévia ordem das coisas. Em Tiatira reinava uma grosseira corrupção, aberta e má, perseguição, aversão à santidade e à verdade de Deus, falsos profetas, embora havia ali um remanescente fiel. Se Tiatira representa a idade das trevas, quando o Senhor tinha escondido a seus santos fiéis nos rincões e esconderijos do mundo, em Sardes temos uma aparência de coisas corretas: um nome de que vive, e uma morte praticamente universal; não obstante, ainda em Sardes estavam aqueles que não haviam contaminado suas vestiduras. Assim como havia uma marcada distinção entre Sardes e Tiatira, também é certo que havia uma igualmente forte linha de demarcação entre Filadélfia e Laodicéia.

“Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve” (não «dos laodicenses»)

Vamos a examinar o caráter que Deus confere a esta igreja, e a luz que Ele traz acerca de sua condição. Se existem duas igrejas que se acham em maior contraste, uma com a outra, seguramente são estas duas. A razão é esta: que quando Deus trabalha de uma maneira especial, quando manifesta sua graça de alguma nova forma e com uma nova luz, ele, a partir do desvio do Cristianismo, sempre faz surgir uma sombra particularmente obscura no curso dos acontecimentos.

Vemos em Filadélfia um quadro brilhante. Eles tinham pouca força, mas tinham que depender Dele em paz; pois o Senhor havia aberto a porta, e Ele a havia de manter aberta. Cristo era toda sua confiança, em contraste com os pretendidos religiosos que aparecem ao mesmo tempo reclamando ser o povo de Deus sem nenhuma consideração por Cristo. A Igreja deveria ser, pelo Espírito Santo, um verdadeiro testemunho da nova criação, da qual Cristo é tanto a única fonte como o Modelo admirável. Mas a igreja fracassou por completo, e nunca tanto como nesta última fase. Pois que diferença achamos quando nos pomos a considerar a Laodicéia!

Acaso o Senhor fala aqui de atender às necessidades deles, de ter a chave de Davi, de apresentar-se como o objeto de seus afetos, como o Santo e o Verdadeiro, em sua magnificência moral, que chama o coração a adorar-lhe? Acaso Ele, quando se dirige à Laodicéia, não fala em outro tom? Ouçamos-lhe:

“Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus” (v. 14).

O fim da profissão era quase arrogante. Cristo era o “Amém”, a única garantia das promessas divinas, e a única “testemunha fiel e verdadeira” Quando todos os demais haviam fracassado. A maneira como Ele se apresenta supõe que aqueles a quem se dirigia mediante a esta mensagem, eram completamente infiéis e haviam revivido as velhas coisas que haviam sido sepultadas no sepulcro de Cristo. Inclusive um santo como Jó não estava na presença de Deus quando pensava tanto acerca de si mesmo (“ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;”, etc. Jó 29:11). Podemos dizer que ele estava na presença de si mesmo e não na presença de Deus. Sempre é um pobre sinal ver um homem detendo-se para contemplar-se a si mesmo, já no que respeita ao bom ou ao mal de si mesmo. Inclusive quando nos convertemos, por que deveríamos deter-nos a considerar as mudanças operadas em nós? Isto não é esquecer-se das coisas que estão atrás – Filipenses 3:13 (as que, diga-se de passagem, não se referem a nossos pecados, senão a nosso progresso): se o Senhor nos têm concedido que demos um passo adiante, o tem feito para que estejamos mais perto Dele, e para que creiamos no conhecimento de Deus. Junto com isto, sempre haverá um aumento no conhecimento de nós mesmos, mas nunca visando a admiração própria. Pertencemos a Cristo, por isso, Ele é o objeto que felizmente nos mantêm humildes. Quando Jó foi levado à íntima presença de Deus realmente, então esteve no pó. Não sabia o que era ser absolutamente nada diante de Deus, até que foi levado ali, e seus olhos lhe viram (Jó 42:5). Antes, Jó visava mais o que Deus produzia Nele, mas agora Ele viu a si mesmo como pó. Depois disto, lhe vemos inclusive orando por seus amigos, e vemos também holocaustos. Tal era também o espírito de intercessão e de adoração. E isso parece a mim que era o espírito ao que havia sido levada a igreja de Filadélfia. Eles entenderam a adoração porque, em sua medida, conheciam Àquele que havia sido desde o princípio. O Senhor deseja que sejamos fortes em Cristo, que cresçamos Nele em todas as coisas.

Em Laodicéia não havia nenhum pensamento semelhante, nada que se pareça entrar em possessão das riquezas do Senhor de graça. Em nenhuma outra coisa deveríamos sentir nossa falta tanto como na adoração, e justamente porque a valorizamos. O sentimento espiritual —ainda que certamente débil— é o que anima nosso pequeno poder de adoração. Seguramente que o espírito de adoração é nosso verdadeiro poder para o serviço. Por isso, diz o Senhor em João 10:9: “Eu sou a porta; o que por mim entrar, será salvo; e entrará, e sairá, e achará pastos.” Já não se trata mais do redil judeu e da escravidão da lei, senão da perfeita liberdade, que entra para a adoração e que sai para o serviço, achando em todo lugar alimento e benção. Que doce é pensar que o tempo vem quando “entraremos”, para nunca mais “sair”!. Será sempre o serviço em imediata relação com o Senhor, o gozo da presença de Deus e do Cordeiro, a adoração eterna. E permita-me perguntar de volta, para quem será esta uma promessa grata e ditosa?: Para aqueles que apreciaram e gozaram da adoração na terra; como o vemos no Salmo 84:4, “Perpetuamente te louvarão”. O lugar onde o Senhor morava estava gravado ainda nos corações daqueles que iam ali: “Em cujo coração estão teus caminhos”. Sentiam que deviam acharem-se onde Deus estava, e ali habitavam.

Em Laodicéia, o Senhor não se revela da mesma forma pessoal, e menos ainda eclesiásticamente; mas se tomam certas qualidades e títulos que pertencem a Ele, cujo alcance vai desde o que Ele havia sido para Deus até o que o vincula com a nova cena na qual estava por ser manifestado como Cabeça sobre todas as coisas. Ele é “o Amém,a testemunha fiel e verdadeira, o principio da criação de Deus” (v. 14). Eles haviam falhado em tudo; haviam sido testemunhas infiéis. Mas é como se lhe dissera: «Vós não haveis encontrado um só pensamento de meu coração. Agora me apresentarei a vós tal como todos deveríeis haver sido. Também era “a testemunha fiel e verdadeira”. O Cristianismo, desde seus primórdios, desde os dias apostólicos por certo, é uma testemunha rejeitada. Cristo se acha em relacionamento com a nova criação.

Mornos

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente.” (v. 15). Isto é latitudinarismo. Não é a ignorância da verdade o que produz este mal mortal, senão que aqui se trata do coração que permanece indiferente à verdade, depois que esta última tenha sido trazida plenamente ante ele. Estas pessoas não querem a verdade, porque, para segui-la realmente, eles sentem que devem sacrificar o mundo e separar-se praticamente dele, ao qual não estão dispostos. Nós deveríamos ser tolerantes sempre que haja ignorância involuntária. Mas a indiferença à verdade é uma coisa totalmente diferente, e algo aborrecível aos olhos do Senhor.

Nunca, pois, o latitudinarismo é a condição das almas que são de simples coração, senão daqueles por quem a verdade tenha sido ouvida e que não estão dispostos para a cruz. A verdade de Deus sempre põe a prova os corações dos crentes. A verdade não é algo que eu simplesmente devo aprender, mas que sou provado por ela. Se a ovelha se acha em uma condição saudável, então ouvirá a voz do Pastor, e nem sequer reconhecerá a voz dos estranhos. Mas se a ovelha se desvia após outros, se verá tão confundida que já não será mais capaz de distinguir a bem conhecida voz do Pastor. Isto é o que surgiu em Laodicéia, e parece que a causa deles se deve por haver desprezado o testemunho dado na Igreja primitiva. Em Filadélfia, Ele se manifestou tal como é, e assegurou a cada coração que lhe recebeu, que como seu Nome era tudo para nós na terra, assim também ele nos dará Seu novo nome no tempo de glória. Cada afeto que tenha sido espiritual, tudo o que o Senhor trabalhou em nossos corações, sairá a luz mais brilhantemente no céu. O Senhor diz à Laodicéia: “nem és frio nem quente”. Eles tinham algo que os estimulava, pois o “frio” não era absoluto. Não eram honestos. Laodicéia é o último estado da decadência, a qual o Senhor já não podia permitir que seguisse mais. É um tempo no qual as pessoas terão muitas verdades em certa forma, mas suas almas não serão exercitadas pela verdade. Se o coração houvesse sido, ainda que fosse, em uma medida mínima, sincero —por mais ignorante que fosse— houvesse gozado de tudo o que provinha do Senhor. Aqueles que têm uma unção do Santo, e que sabem todas as coisas, como se diz em 1.ª Jo 2, não são os “pais” (quem naturalmente também haviam sido ungidos da mesma maneira), senão as criancinhas” (lit. “bebês”). Esta capacidade de julgar o que não é de Cristo, depende de que o coração seja leal a Ele. Por isso, o santo mais jovem na fé, com um “olho sensível”, é capaz de discernir com absoluta certeza nos casos em que um teólogo está extraviado em “genealogias intermináveis”.

Todo espírito que não confessa, senão que nega a Cristo (ao Cristo de Deus), é do anticristo. Houve, como há hoje, muitos anticristos, e a esfera de atividade onde podemos descobrir-los é ali onde o nome de Cristo é pronunciado. Se Cristo não houvesse sido conhecido, não poderia haver um anticristo, o qual foi a sombra obscura que seguiu à verdade. Tão seguramente como o Senhor trabalha em seus caminhos de graça, Satanás também está ativo. Ser “morno” era ser falso, com a pretensão da verdade; e o Senhor diz: “Te vomitarei de minha boca.” Não conheço em nenhuma outra parte que o Senhor empregue uma expressão tão depreciativa como esta. Difere notavelmente da maneira em que tratou a Sardes, onde se dá o juízo geral do Protestantismo, à qual o Senhor julga como ao mundo e ameaça a vir sobre ela como ladrão. É esta a maneira em que medimos nossas coisas? Pensamos provavelmente que Jezabel teria sido considerado como o pior; mas, nos surpreendemos porque que ser “morno” era realmente o pior de tudo? Entretanto, era isto o que provocou toda a indignação do Senhor, e Ele somente sabia.

A auto-satisfação

“Porque tu dizes: Eu sou rico, e me tenho enriquecido, e de nenhuma coisa tenho necessidade; e não sabes que tu és um desventurado, miserável, pobre, cego e nu” (v. 17).

Aqui encontramos uma clara prova de que eles haviam ouvido muito acerca da verdade. Criam que eram ricos. Consideravam a erudição e o intelectualismo em matéria religiosa como algo excepcionalmente desejável e de sumo valor. O crescimento nestas coisas —ao menos em extensão, mas não em profundidade— era para eles um motivo de satisfação. A propagação do conhecimento exterior de Deus é o que precipita a crise final, o juízo final e a supressão definitiva de tudo o que leva seu Nome falsamente e para sua própria complacência. Eles haviam buscado muito ao homem e ao mundo, os que prometem muito aos olhos. Mas isto não é justo juízo; pois quando se dá lugar assim à natureza caída na igreja, resulta em grande perca, até a plena exclusão do que é divino e celestial, e frente a todas as verdadeiras riquezas, ele significava o verdadeiro e amargo empobrecimento. Isto é o que o Senhor passa a apresentar ao anjo logo. Segue então uma falta de discernimento.

“e não sabes que tu és um desventurado, miserável, pobre, cego e nu” (v. 17).

Isto era assim porque haviam recusado o testemunho de Deus. Seu testemunho sempre produz o sentimento de não ser nada, mas nunca debilita a confiança Nele. Pode haver provas. As Epístolas de João estão cheias delas; mas não existe nunca o pensamento de que o Espírito conduza a um crente a duvidar de que Deus esteja a favor Dele. Ele pode trabalhar —e seguramente trabalhará— em uma alma que se esteja apartando do Senhor para voltar a trair a Ele. Pode fazer-nos sentir nossa debilidade. Mas de nenhuma maneira trabalhará jamais produzindo uma dúvida da verdade. E sempre é um sinal da carne em atividade, “desejando contra o Espírito”, quando damos lugar à desconfiança. Sempre o Espírito Santo, onde quer que se encontre, têm por objetivo fazer que um homem se humilhe completamente a si mesmo, que julgue e que renuncie à insensatez da carne. Há, e deve haver, sempre realidade e confiança na presença de Deus.

Laodicéia diz: “Eu sou rico, e me tenho enriquecido, e de nenhuma coisa tenho necessidade” (v. 17). É o Espírito Santo precisamente quem pronuncia que isto é presunção da carne, um coração que não conhece suas necessidades e que recusa a graça. Havia antes certo calor momentâneo, que é o que a havia feito tão aborrecível para Deus. Mas isto é justamente o que os homens estão fazendo, os que falam da igreja do futuro. Eles chamam ao tempo apostólico «a infância da igreja»; mais tarde a igreja se viu excessivamente crescida e desenvolvida assim como arrogante; e agora eles buscam uma igreja do futuro, quando já não esteja mais sujeita, senão que atuará por si mesma: atuará como um homem adulto. Ai!, onde terminarão estas aspirações? Pois Deus será excluído da assim chamada «igreja», e Sua autoridade não será levada em conta.

A indiferença

Isto está operando hoje de maneira extensiva. E são mornos os filhos de Deus frente a Ele; frente à verdade de Deus que é excluída?
Recordemos o que o Senhor diz aqui: “Te vomitarei de minha boca.” Seria um grave erro supor que não havia bons homens entre eles. Mas não se trata aqui de uma questão de indivíduos, senão da assembléia: O Senhor disse que como tal Ele os vomitaria de sua boca. As pessoas não podem congregar em extensas massas sem terem como resultado o laodiceísmo, por não dizer que este tenha sido também a fonte dele. A popularidade é uma coisa; mas outra muito distinta é o Espírito Santo que reúne as almas para Cristo no presente tempo. O Senhor seja louvado se tão só haja uns poucos congregados em seu Nome (Mateus 18:20)! Que todos os filhos de Deus tenham presente que eles devem render contas ao Senhor Jesus, a respeito de si se falam representados por Laodicéia ou não; se é que estão vivendo para Cristo, ou para o que meramente leva seu Nome como um véu sobre o indiferentismo.

Entretanto, o Senhor não os abandona. Lhes diz: “eu te aconselho que de mim compres ouro refinado no fogo, para que sejas rico, e vestiduras brancas para vestir-te, e que não se descubra a vergonha de tua nudez” (v. 18). O ouro é empregado como símbolo da justiça intrínseca na natureza de Deus, ou justiça divina; e vestiduras brancas, ou linho, representa as justiças dos santos, como o vemos no capítulo 19.

A justiça divina não formava mais parte de seus pensamentos. Nem apreciavam a justiça de Deus —o qual um cristão é feito em Cristo (2.ª Corintios 5:21)—, nem tampouco a justiça prática posta de manifesto ante os homens, à qual o Espírito Santo conduz. De modo que o Senhor lhes aconselha que comprem Dele o verdadeiro ouro, e vestiduras brancas para que possa ter lugar a santidade que lhes convinha diante dos demais. “Unge teus olhos com colírio, para que vejas.” Aqui esta o segredo: a falta de unção do Santo. Eles não viam nada adequadamente; nem sequer sua necessidade da justiça divina.

Chamado ao arrependimento: Cristo está fora e chama

“Eu repreendo e castigo a todos os que amo; se, pois, zeloso, e arrepende-te” (v. 19). Seguramente que esta é a voz do Senhor para o tempo presente. Ah, eis aqui o que os laodicenses necessitavam!. O Senhor está tratando com seu povo; põe continuamente diante deles algo para humilhá-los nos pensamentos que têm de si mesmos: Ele não lhes diz que façam ou que tratem de fazer algo novo, senão que os chama a “arrependerem-se”. Não lhes pede que estendam suas asas para realizar algum vôo maior no futuro, senão que vejam onde estão, e que confessem seu fracasso. Mas isto é tedioso à luz de um coração auto-suficiente e contento de si mesmo. Entretanto, o chamado ao arrependimento aqui, como em Sardes, difere enormemente do que vemos nas mensagens a Éfeso e a Pérgamo, onde se requereu a todos abaixo pena de solene castigo da parte do Senhor, já seja de maneira geral ou particular. Tiatira tinha aqui também um lugar intermédiario: “E tenho dado tempo para que se arrependa, mas não quer arrepender-se de sua fornicação” (Apocalipse 2:21). Por isso seguiu a ameaça do juízo, e sobreveio a vasta mudança em toda sua extensão.

É algo muito mais elevado padecer por Cristo e com Cristo, que ser ativo em obras. Quando o apóstolo perguntou uma vez: “Que farei, Senhor?”, o Senhor lhe disse: “Te mostrarei quanto te é necessário padecer por meu nome” (Atos 9). Isto é o que o Senhor valoriza de maneira muito especial. Não meros sofrimentos como homens, senão sofrimentos por Cristo. “Se sofremos, também reinaremos com Ele” (2.ª Timóteo 2:12).

Em Laodicéia se tratava de pessoas que, por causa de seu orgulho, haviam caído muito baixo, e eram, pois, chamadas a serem zelosas e a arrependerem-se, a humilharem-se diante de Deus por causa de sua condição.

Entretanto, o Senhor profere uma palavra de graça: “Eis aqui, eu estou à porta e bato” (v. 20). Não é algo solene que o Senhor esteja ali, e que tome o lugar de alguém que está fora? Entretanto, ele estava disposto a entrar quando achar uma alma leal a ele. “Se alguém ouve minha voz e abrir a porta, entrarei a ele.” Faz falta dizer que isto não se trata de uma mensagem de salvação para o mundo? No capítulo 10 de João, o Senhor se apresenta em plena graça dizendo: “Eu sou a porta; o que por mim entrar, será salvo” (v. 9). Mas em Apocalipse Ele fala desta maneira à igreja. Que posição solene! Quão baixo havia caído ela agora! O que devia haver sido a gostosa porção de toda a igreja —já seja em sua proximidade à Deus ou em suas manifestações ante aos homens ou na comunhão de Cristo—, era agora oferecida em pura graça àquele que ouvir com atenção e se humilhar ante a graça do Senhor. Ele certamente não tem simpatia com a auto-satisfação de Laodicéia. Por isso está fora, golpeando á porta, por se acaso houver algum coração dentro que não estiver tão ocupado com as coisas e com as pessoas ao redor, e que lhe abra a porta. Ao tal lhe diz: “Entrarei a ele, e cearei com ele, e ele comigo” (v. 20). Mas se trata de um assunto inteiramente individual. Em presença do mais grave abandono da verdade, devemos acaso dizer: «Não há nenhuma esperança»? De nenhuma maneira; pois o Senhor está à porta e chama. Pode ser que não muitos respondam a seu chamado, mas alguns o farão.

Sentados no trono de Cristo

E a promessa é: “Ao que vencer, lhe darei que se sente comigo em meu trono, assim como venci, e me tenho sentado com meu Pai em seu trono” (v. 21). É um erro supor que esta é uma promessa gloriosa: estamos dispostos a pensar assim porque naturalmente valorizamos tudo o que se relaciona com glória celestial. Mas Deus não estima as coisas deste modo. A regra que mede as coisas segundo seu valor, é o santo amor de Deus —o que demonstrou ser divino, grandemente quando Cristo se humilhou ao descer até o homem e morreu por ele—, e não o poder nem a glória. Deus podia haver feito milhares de mundos resultando muito mais fácil que dar a seu Filho para sofrer na cruz. Não questiono a graça dessa expressão, apesar de semelhante mal que imperava; mas nossa participação no reino com Cristo não é o mais bendito que gozaremos. E a promessa que aqui se faz não vai mais longe. O que temos e teremos em Cristo mesmo é muito mais precioso. Entretanto, esta é uma porção com Cristo. Em João 17:23 o Senhor mostra que a dispersão de glória é para a reivindicação de si mesmo ante o mundo. Toda a glória revelada no futuro constituirá a prova para o mundo, para que saibam que o Pai nos ama como amou a seu Filho. Mas nós estamos facultados a saber pelo Espírito Santo agora. Não temos que esperar até então para conhecer o amor que nos têm dado a glória: uma coisa mais profunda que aparecer ante o mundo ou que tronos no reino. O afeto pessoal do Senhor a seu povo é uma porção muito melhor que qualquer coisa dispensada ante os homens ou os anjos.

E aqui o Senhor encerra as igrejas. Ele havia chegado ao último estado. A sabedoria de Deus tem surtido nestes capítulos, nas verdades profundas, senão ao contrário o que requer consciência; e isto, antes que grande capacidade,é o que devemos entender.

W. Kelly, Lectures on the Book of Revelation, pág. 80-88

SINOPSE

Da mensagem à assembléia de Laodicéia


A Igreja em sua responsabilidade sobre a terra ia ser descartada, principalmente ao final, por ser um testemunho infiel. O quadro que descreve o estado de Laodicéia é, naturalmente, muito claro, mas, a meu entender, é o resultado da aversão e o desprezo do testemunho suscitado precedentemente pelo Senhor (Filadélfia). Se se desconhece e despreza a verdade valorizada por aqueles que deveras esperam ao Senhor, um se encontra em perigo de cair na espantosa condição que a Palavra põe aqui ante nossos olhos. Em Laodicéia, Cristo já não é mais o único objetivo pelo qual o coração se sente atraído e com o qual se compraz. Tampouco existe mais aqui o sentimento da benção relacionada com sua vinda e que conduz a esperar; e menos ainda se glorifica um na debilidade, de modo que o poder de Cristo permaneça e se manifeste nesta mesma debilidade. Ao contrário, prevalece o desejo de ser grande, de ser tido em alta estima pelos homens, tal como diz: “Eu sou rico, e me tenho enriquecido, e de nenhuma coisa tenho necessidade” (v. 14). Vemos aqui uma condição, pois, que deixa um amplo lugar para os pensamentos e os caminhos do homem.

Por isso o Senhor se apresenta ante eles como “o Amém”, o fim de toda esperança no homem; e toda segurança não se fala mais que na fidelidade de Cristo de Deus. Cristo somente é “a testemunha fiel e verdadeira”. Isto é precisamente o que a Igreja teria que haver sido e não foi, e, por conseqüência, Ele mesmo deve tomar este lugar. É o mesmo lugar que ele ocupou quando, cheio de graça, esteve aqui em baixo; e agora ele deve repreender à Igreja em poder, em glória e em juízo. E dificilmente um pode conceber tão grande e solene repreensão infligida à condição daqueles cuja obrigação era haver sido testemunhas fiéis e verdadeiras na terra. Além disso, ele é “o princípio da criação de Deus”. Isto põe ao primeiro homem completamente de lado, e com toda a razão por quanto Laodicéia é a glorificação do homem e de seus recursos na Igreja.

“Eu conheço tuas obras, que nem és frio nem quente. Oxalá fosses frio o quente! Mas por quanto és morno, e não frio nem quente, te vomitarei de minha boca” (v. 15). Eles são neutros, ou indiferentes, em princípio e na prática; seu coração somente está “meio” do lado de Cristo. Estou persuadido de que nada é mais propenso a gerar a indiferença que quando se assume uma posição sã da verdade exteriormente, mas sem o exercício do juízo de si mesmo e uma sincera piedade. Quanto mais se esteja firme na frente do campo de batalha, levando a responsabilidade do testemunho de Deus, tanto mais haverá conhecido e professado conhecer a graça e a verdade de Deus, expondo-las literalmente ante os demais. Mas se não há um andar que marche parelho com a luz; se o coração e a consciência não são governados e animados pelo poder do Espírito de Deus, por meio de uma fé viva em Cristo, mais profundamente também, cedo ou tarde, um cairá de novo em um estado de indiferença, se não de ativa inimizade. Um se voltará indiferente a tudo o que é bom, e o único tipo de zelo que predominará, se existir algum zelo, será pelo que pertence ao primeiro homem, isto é, pelo mundano e o mal.

Tal é o estado de Laodicéia ou laodiceísmo. E o Senhor declara que é uma coisa tão repulsiva, que não é de se estranhar que a maioria não esteja disposta a reconhecer que essa seja sua condição, como o é, ou sequer que possa ser. É a última fase antes de que não fique aparência da Igreja na terra. A pessoas sonham em vão com progressos, e se bajulam. “Mas por quanto és morno, e não frio nem quente, te vomitarei de minha boca. Porque tu dizes: Eu sou rico, e me tenho enriquecido, e de nenhuma coisa tenho necessidade; e não sabes que tu és um desventurado, miserável, pobre, cego e nu. Portanto, eu te aconselho que de mim compres ouro refinado no fogo” (v. 16-18). Eles queriam tudo o que é característico do cristianismo —ainda que careciam de tudo o que é precioso: “ouro”, ou seja, a justiça divina em Cristo, “para que sejas rico”, e “roupas brancas”, o que significa a justiça dos santos, “para vestir-te, e que não se descubra a vergonha de tua nudez”. Além disso, tinham necessidade de “colírio” para seus olhos: “e unge teus olhos com colírio, para que vejas” (v. 18). Haviam perdido a percepção do que Deus valoriza. Tudo era obscuro em quanto à verdade, e incerto em quanto ao juízo moral. A santidade da separação e o sabor da vida haviam desaparecido.

“Eu repreendo e castigo a todos os que amo; se, pois, zeloso, e arrepende-te. Eis aqui, eu estou à porta e chamo; se alguém ouve minha voz e abre a porta, entrarei a ele, e cearei com ele, e ele comigo” (v. 19-20). Ainda ali, nesta triste condição, o Senhor se apresenta de fora, cheio de graça para responder às necessidades das almas.

"Ao que vencer, lhe darei que se sente comigo em meu trono, assim como eu venci, e me sento com meu Pai em seu trono. O que tem ouvido, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (v. 21-22).

E nas palavras que terminam a epístola, não encontramos nada de especial; o máximo que se promete não vai mais além da promessa de reinar com ele. Agora bem, reinar com Cristo é o que se reserva a cada um dos que terão parte na primeira ressurreição, inclusive aos judeus que padeceram pelos inimigos anteriores, ou mais tarde pelo reino do Anticristo. É, pois, um erro supor que esta promessa constitua uma distinção particular. Pois tudo se resume no fato de que, depois de tudo, o Senhor se mostrará fiel, apesar da infidelidade reinante. Pode haver uma fé individual real no meio das condições mais desfavoráveis e adversas. Mas todos os que são de Deus e de Cristo compartem o reino.

W. K., Revelation Expounded, pág. 71-

extraído do site www.verdadespreciosas.com.ar

Traduzido para o Português pelos irmãos da cidade de Alegrete-RS

O Grande Hino Cristológico de Efésios- Isaltino G. C Filho

O texto de Efésios 1.3-13 é a maior sentença gramatical da Bíblia. O ponto final aparece no versículo 13 (Bíblias antigas) ou no 14 (Bíblias novas). São 203 palavras no texto grego. Após a saudação habitual em suas cartas, Paulo prorrompe em louvor de maneira tão entusiástica que custa a parar. Encadeia os pensamentos um após o outro e fica até difícil captar o sentido do que ele está a dizer.

Mas não é apenas longo. É um texto riquíssimo este que abre a carta, que é chamada de “rainha das epístolas”. Efésios é onde o gênio de Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, mais fulge. É também onde encontramos o mais alto conceito de igreja na Bíblia. Todas as igrejas deveriam estudá-la com seriedade, para entenderem o que são e para terem uma visão correta do seu propósito neste mundo. Segundo MacKay, em Efésios temos “a essência destilada do cristianismo, o compêndio mais autorizado e completo da nossa fé cristã”. Lloyd-Jones disse que “é difícil falar dela de maneira comedida por
causa de sua grandeza e sublimidade”. Colleridge a avaliou como “a composição mais divina da raça humana”. Ela mostra todo o propósito de Deus para a raça. Sintetiza de maneira brilhante o propósito divino para a humanidade, mostrando o que ele espera não apenas da igreja, mas da família
e da sociedade.

UM HINO DE LOUVOR
Este brilhante escrito começa com um hino. Não um hino comum, mas um brilhante hino cristológico, repleto de afirmações teológicas de profundidade ímpar. Ele nos mostra que o louvor não precisa ser raso, superficial. Pode trazer grandes ensinos. Não é passatempo. Faz parte do processo da pedagogia das verdades cristãs. Embora seja chamado de “hino cristológico”, o texto mostra a harmonia das pessoas da Trindade, trabalhando juntas. No versículo 3 o foco é o Pai. No versículo 5, é o Filho. E no versículo 13, é o Espírito. É um hino que mostra a obra da Trindade. Uma boa pista para nós. Nossos hinos podem e devem ensinar as grandes verdades da fé cristã, e não apenas experiência humana. Devem ser inspirativos (quem negará a inspiração de Efésios 1.3-14?), mas devem ser pedagógicos. Cânticos cristãos não podem ser entretenimento. Devem ser ensino e mensagem.

O aspecto do louvor fica bem claro no texto. Há um refrão que surge três vezes: “para o louvor da sua glória” (vv. 6, 12 e 14). O louvor é para a glória de Deus. Quando aprenderemos isto, a diferença entre o importante e o essencial? É importante que o povo de Deus seja edificado, que receba força espiritual no culto, que seja instruído e firmado na sua fé. Mas é essencial que o louvor glorifique a Deus. E, de maneira que não podemos explicar porque é ação exclusiva do Espírito Santo, quando Deus é glorificado, seu povo (seu povo mesmo, e não os aderentes, como a massa que saiu do Egito com Israel e só lhe criou problemas) é edificado e confortado. O crente é fortalecido espiritualmente na mesma proporção em que Deus é glorificado no culto que ele presta. Ponha-se o foco em Deus que ele nos comunica sua graça e seu poder.

BENDITO SEJA O DEUS E PAI DE NOSSO SENHOR JESUS
CRISTO – O PAI COMO REFERENCIAL
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. A primeira palavra é “Bendito”, no grego eulógetos, que só se emprega para Deus. Só ele deve ser louvado e bendito. Paulo toma uma antiga oração rabínica que era a segunda bênção ministrada pelo dirigente da sinagoga, antes da recitação do shemá (Dt 6.4), e que termina com esta expressão: “Bendito sejas tu, o Senhor que escolheste teu povo Israel no amor”. O texto de Efésios 1.3-4 é quase um eco desta bênção: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo… nos elegeu nele… em amor” . Paulo adapta a liturgia da sinagoga para ser a bênção inicial de sua carta. Se, como desejam vários eruditos, Efésios era, na realidade, uma carta circular enviada às igrejas, a questão se torna mais profunda. Paulo está saudando os cristãos com uma bênção da liturgia judaica, cristianizando-a. A expressão está inserida num cântico de louvor. E que riqueza teológica! O trato de Deus agora é com a Igreja. Ela é o povo de Deus. Ela canta sua eleição e os propósitos divinos para ela. Louvor não é mero misticismo, mas uma declaração de que temos um novo relacionamento com Deus. A modificação tem sentido teológico. A nação era o canal das bênçãos aos homens. Por isso, seu Deus e Pai devia ser bendito. Jesus Cristo é o novo canal de bênçãos. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. A expressão reconhece que é em Cristo que estão as bênçãos divinas, e que Jesus Cristo é o Senhor. Este é o valor cristológico deste hino. E é para nós uma forte recomendação. Cânticos com teologia sadia expressarão a bondade de Deus em nos abençoar e apregoarão Jesus Cristo como Senhor e como canal de bênçãos para nós. Muitos de nossos cânticos, principalmente alguns baseados nos salmos, caberiam numa sinagoga. Nada falam da segunda e terceira pessoas da Trindade. Mas nós não somos judeus. Somos cristãos e cantamos Jesus Cristo. Reconheço que não é a simples menção do nome de Jesus que dará conteúdocristológico a um cântico. O competente Verner Geier, na metrificação do salmo 142 que nos rendeu o hino 380 do HCC, não colocou lá o nome de Jesus.

Mas não é um hino genérico. Verner conseguiu dar um conteúdo cristão ao hino. O que lá está é cristão. Bem diferente de “Quero subir o monte santo de
Sião”. O cântico cristão comunica a mensagem cristã e mostra o cuidado divino pelo seu povo, a Igreja.

NO FILHO, PELO FILHO, PARA O FILHO – O FILHO COMO
REFERENCIAL

O hino não bendiz o Filho (não há um eulógetos para ele), mas exalta sua pessoa. O elemento gramatical mais repetido é a preposição grega en, correspondente ao nosso “em”, seguida do dativo. Ela vem com o pronome pessoal (“nele”), ou com um nome (“em Cristo”, “no Amado”). A preposição aparece dez vezes, sendo que em nove vezes se aplica a Cristo e em oito à obra mediadora de Cristo. A teologia do hino se centra na pessoa e obra de Cristo e faz dele o referencial teológico. O hino nos direciona para Cristo no sentido de que nele as bênçãos de Deus foram dadas e transmitidas aos fiéis. Pela união com o Filho passamos a pertencer ao Pai (v. 4). Ele nos tornou seus filhos em Cristo (v. 5). A morte de Cristo na cruz nos trouxe o perdão dos pecados (v. 7). No tempo certo, o Pai unirá todas as coisas, no céu e na terra, sob a autoridade de Cristo. A morte de Cristo na cruz é o eixo da argumentação. Basta ver que fica quase no meio da margumentação (v. 7) e que se torna o referencial argumentativo do apóstolo.

O culto cristão precisa ter uma forte ênfase cristológica. Como professor de Antigo Testamento e Homilética por mais de três décadas, este autor tem uma tendência a pregar no Antigo Testamento. Evita cristianizar o texto veterotestamentário, a não ser que este seja messiânico. Mas reconhece que nmesmo pregado no Antigo Testamento, um sermão cristão tem que culminar na pessoa e obra de Cristo. A recomendação paulina “Nós pregamos a Cristo
crucificado” (embora ele pregasse muitos outros temas) deve ter uma correspondente para músicos cristãos: “Nós cantamos o Cristo crucificado”. Não podemos esquecer de cantar a cruz de Jesus Cristo! O Cristo crucificado é o canal de bênçãos para o mundo.

UM HINO DE FÉ PESSOAL E DE TESTEMUNHO – AS TRÊS
GRANDES SEÇÕES DO TEXTO

Os verbos, neste texto, estão no indicativo, com uma variação de sujeitos. São três seções, como o canadense Gourgues bem apontou: A primeira seção está nos versículos 3 a 6, onde os verbos (“ele nos escolheu”, v. 4, e “ele nos deu”, v. 6) se referem a Deus. Esta seção se chama ELE. A segunda seção está nos versículos 7 a 12, onde os verbos (“temos”, v. 7, e “sermos” e “havíamos”, v. 12) se referem aos cristãos. Esta seção se chama NÓS.

A terceira seção está nos versículos 13 e 14, mais breve que as anteriores. A idéia central é “fostes selados” (v. 13). Esta seção se chama VÓS. Ele, nós e vós são os sujeitos de cada seção. E cada um delas termina com a expressão “para o louvor da sua glória”. O que está sendo dito é fácil de compreender. Ele age para sua glória. Nós existimos para sua glória. Ele age na vida de todos, o nós e o vós, para a sua glória. Citando Gourgues: “Esta formulação se liga àqueles convites para bendizer e louvar Iahweh os quais se encontram no Antigo Testamento, nas passagens narrativas das intervenções e maravilhas de Deus”. Os efésios são chamados, e nós com eles, a louvar a Deus pelos seus atos em favor dos homens. É um testemunho de seu poder que opera por nós. A glória é para ele. Mais à frente, o apóstolo dirá num momento também de louvor: “Ora, àquele que é poderoso para fazer muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse seja glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as
gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.19-20).

O louvor em Efésios é pelo poder de Deus que opera pelo seu povo. Por aquilo que ele fez por nós. Tudo na igreja, e deve ser assim muito mais no culto, deve ser para o louvor da glória de Deus. Que sua glória brilhe, e não a dos homens!

CONCLUSÃO

O grande hino cristológico de Efésios não pode ser esgotado em um estudo. A ele voltaremos na próxima edição da revista, vendo seu conteúdo. É importante que isto seja feito, para podermos saber o que os primeiros cristãos cantavam. Mas hoje já podemos ver algumas questões. Cantamos que somos o povo de Deus, que ele tem um propósito para nós, que ele e só ele
deve ser bendito, que Jesus Cristo é o canal de bênçãos para este mundo. Que tudo que fazemos é para o louvor da sua glória. Por tudo isto, que não haja estrelismo nem banalidade no nosso culto. Ele deve ser uma profunda reflexão sobre o agir de Deus em seu propósito eterno. Ele tem um plano para o mundo. Nós, sua Igreja, fazemos parte deste propósito e por isso o louvamos.

Nossos cultos precisam ter uma visão do atacado, não apenas do varejo. Não é apenas o que Deus faz por mim, mas o que Deus faz em nível histórico, ao longo dos tempos, conduzindo tudo para submissão a Cristo. A Igreja celebra esta verdade: a história está nas mãos de Deus e ela serve a este Deus poderoso que engendrou seu plano “antes da fundação do mundo” (1.4). Que maravilha servir e adorar a este Deus! PARTE 2 Continuamos considerando o texto de Efésios 1.3-14, estudado no número anterior. Naquele artigo consideramos aspectos lingüísticos e de estrutura do hino paulino. Hoje vamos analisá-lo por dois ângulos. O primeiro é sua perspectiva teológica, com uma visão trinitariana. É o que os teólogos chamam de “economia da Trindade”. O outro é o das bênçãos que temos em Cristo.

UMA VISÃO TRINITARIANA DO HINO CRISTOLÓGICO DE
EFÉSIOS

As três pessoas da Trindade aparecem no texto. O Pai aparece nos versículos 3-6. O Filho, nos versículos 7-10, e o Espírito, nos versículos 13-14. Isto não é mera curiosidade textual ou diletantismo teológico. A fé cristã não é unitariana nem coloca uma das pessoas da Trindade sobre as demais. Já ouvi corinhos em que o Espírito era mostrado apenas como o “poder de Deus”, uma energia, uma coisa, não uma pessoa. Nossa fé é trinitariana, como o hino 8 do HCC tão bem nos ensina. Aliás, muitos dos hinos do passado eram ensinos teológicos, com doutrina bem fundamentada. Muitos dos cânticos atuais são experiencialismo puro, exaltação de sentimentos e valorização de sensações. Cuidado com isso. Poderemos ter uma igreja sentimentalóide, mas
vazia em seu credo. Evitemos também compartimentalizar as pessoas da Trindade, em aspectos tão estanques que elas parecem nada ter a ver uma com a outra. Ficase com uma Divindade esquizofrênica, em conflito entre si.

NÃO CANTEMOS O APLACACIONISMO!

Nesta visão trinitariana, devemos evitar a heresia do aplacacionismo, segundo o qual o Filho veio para aplacar a cólera de um Pai iracundo, e opõe as duas pessoas. O Novo Testamento não diz que o Filho nos reconciliou com o Pai, mas que o Pai nos reconciliou consigo por Cristo (2Co 5.18-19). O Pai é o mentor da salvação. Ela nasceu em seu coração, na eternidade (v. 4). Não se pode passar a imagem de que o Pai condena e o Filho vem para se opor ao Pai e nos salvar. Não é como nos filmes americanos, “o policial mau e o policial bonzinho”. A Trindade é boa. Toda ela.O Pai ama, o Filho ama, o Espírito Santo ama. A igreja deve cantar uma Trindade harmônica, que ama o homem. Muitos cânticos mostram um Pai santo, exigente, e um Jesus meloso, bondoso, que aceita tudo. Cuidado com o Jesus que diz “Venha como está” ou “Venho como estou”. Pode vir como está, mas não para ficar como está. “Vai-te, e não peques mais”, disse Jesus (Jo 8.11). É para ser santo, pois para isto fomos eleitos (v. 4). Não podemos conflitar os atributos de Deus, menosainda as pessoas da Trindade, em nosso louvor. Nem pensar que uma condena o pecado e a outra passa a mão na cabeça do pecador.

O FILHO NO CÂNTICO

O Filho nos redime do tirano, que não é o Pai, mas o pecado (v. 7). O que foi feito do pecado em nossos cânticos? Parece se exaltar um evangelho psicológico, que faz a pessoa se encontrar existencialmente, ter sentido na vida, ser feliz. Mas e o poder do pecado, seu perigo sobre os crentes? Ele sumiu das pregações e dos cânticos. De um lado, pelo triunfalismo, em cânticos ingênuos mostrando uma vitória sobre o Diabo, ignorando a tensão da vida cristã entre o já e o ainda não. Há aspectos que já se concretizaram, mas outros ainda não. Simplifiquemos: a igreja ainda é militante, e não triunfante, em glória. A salvação ainda não chegou ao estágio da glorificação, que alguns cantam como já presente. Do outro lado, um evangelho mais voltado para o cotidiano, muito imanente, pouco transcendente. Está se cantando muito o aqui e o agora, e pouco o metafísico. Um evangelho que atende nossas necessidades psicológicas e emocionais (o sentir-se bem) e não seu aspecto transcendente (perdão dos pecados e libertação do poder do mal). Cuidado para não humanizar tanto o evangelho que ele passe a ser auto-ajuda. Pelo Filho conhecemos o “mistério” (v. 8). Paulo bate de frente com os gnósticos, que diziam “temos a chave para compreender o mundo”. Paulo mostra que o mistério para entender o mundo é Jesus. Cuidado com o Cristo esotérico, intimista, tão internalizado, que passa a ser um sentimento. Cristo é a chave para se entender o mundo. Nossos cânticos devem mostrar que nós entendemos o mundo pelo evangelho, que Jesus é a resposta divina às mazelas do pecado. Devemos evitar o esoterês evangélico, que vai se tornando comum em nosso meio.

O ESPÍRITO NO CÂNTICO

A igreja canta o Espírito. Ele sela a eleição (v. 13). A raça humana estava dividida entre judeus e gentios e Deus fez deles um só povo. E deu o Espírito a todos (a igreja deve cantar a universalidade do Espírito) para selálos em uma nova humanidade. O Espírito não é uma força, nem energia, nem o poder de Deus. É uma pessoa. Alguns de nossos corinhos parecem apontar para o Espírito como se fosse um fio desencapado, dando choque nas pessoas. Ele vem para eletrizar o culto, nesta visão distorcida. Ele é a prova de que a igreja é igreja. Ele une a igreja, não a divide. Aliás, quem a divide não tem o Espírito (Jd, 19).

O Espírito mantém a igreja unida. Infelizmente, muita carnalidade e vaidade se disfarçam de “louvor” ou de “defesa da pureza da fé”, e divide as igrejas. O Pai nos fez um pelo Espírito. Está errada a letra do hino 564 HCC, pedindo que o Pai nos faça um. Ele já nos fez. Nós é que quebramos a unidade, mas ela foi feita na cruz, e é aplicada pelo Espírito. O Pai tem sido injustiçado em muitas pregações e cânticos evangelísticos. É uma parte destrambelhada da Trindade. O Filho tem recebido uma visão distorcida, como a parte da Trindade bem sentimental, edulcorada. Mas com o Espírito é pior: ele tem sido rebaixado a mera energia. A Trindade trabalha em harmonia. Os novos compositores fariam bem em ler um pouco sobre a Trindade e examinar os “ultrapassados” hinos trinitarianos do CC e do HCC.

Respeitosamente: compositores, procurem uma orientação teológica. Não ensinem o povo a cantar errado. Doutrina não é irrelevante. Sem ela saímos do aspecto real da fé e caímos em sentimentalismo, quando não em erro.

O ASPECTO DAS BÊNÇÃOS QUE TEMOS EM CRISTO

O texto paulino lista as bênçãos de Deus para os cristãos. Temos pensado em bênçãos em termos materiais. Mas Paulo lista aqui as maiores bênçãos que o ser humano pode ter: eleição e predestinação (vv. 4, 5 e 11), redenção e remissão (v. 7) e significado correto da vida (v. 14). O verbo grego para “predestinar” é proorisos, “marcar antes”. Não se trata de arbitrariedade, mas de segurança. Nossos cânticos devem refletir a segurança de que a salvação não é intempestiva. Nem somos os cachorrinhos que recolhem as migalhas caídas da mesa. Alguns parecem pensar que quando Israel rejeitou Jesus, Deus ficou meio perdido: “Ora, com essa eu não contava!” e se voltou para os gentios e formou a igreja. Assim, somos herdeiros do restolho. A igreja deve nutrir esta fé e cantá-la com vigor: ela não é acidente. Ela existe no coração de Deus desde a eternidade. Deve cantar com júbilo por ser igreja. Todas as vezes que canto o hino 504 do HCC, “Da igreja o fundamento”, eu me comovo. Chego a chorar. Que alegria! Eu sou igreja de Jesus, ele me escolheu na eternidade e está trabalhando minha pedra bruta para me tornar uma pedra viva, que glorificará o nome de Jesus! Nossa fé deve ser cantada lembrando que fomos escolhidos e que Deus está trabalhando em nós.
Redenção e remissão (v. 7) são termos muitos parecidos. Completam a idéia de comprar e de soltar. Devemos cantar nossa liberdade do poder do pecado (Jo 8.34,36) e o fato de que fomos tornados livres em Cristo. Nossos cânticos devem enfatizar que não somos mais escravos, mas filhos (v. 5). Nosso culto deve expressar esta profunda convicção: “Amados, filhos somos já de Deus...” (364 CC). Mas isto não é por bondade nem pelo louvor. Aliás, cuidado, o louvor tem se tornado “a quarta pessoa da trindade”. Ele não nos torna aceitáveis diante de Deus. Não é o que fazemos, mas o que ele fez. Somos filhos, sim, devemos cantar. Mas revelemos o preço: “pelo seu sangue” (v. 7). Cuidado com o louvor caimita, de frutos da terra. O louvor deve expressar que somos aceitos por causa do sangue de Cristo. A morte vicária de Cristo não pode ser escondida nem subdimensionada. É por ela que nos vêm as bênçãos de Deus. É por causa dela que cultuamos.

POR QUE TUDO ISTO?

“Para o louvor da sua glória” (vv. 6, 12 e 14). É para glória de Deus. Eis mais uma bênção. O sentido de tudo isto: passamos a viver com significado, para a glória de Deus. Os cânticos modernos têm sido muito antropocêntricos e alguns refletem esta concepção “Deus faz coisas para mim, Deus é para mim”. Ele já fez. A salvação é “Eu para Deus, eu devo glorificá-lo”. Nossa vida passa a ser em função dele, não apenas o louvor, mas a vida. A psicologização do evangelho junto com o enfoque antropocêntrico põem o foco no homem e em suas necessidades. Temos necessidades que só Deus pode suprir, mas devemos lembrar que existimos para ele. “Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm 11.36). Cuidado com cultos que glorificam pessoas. Tudo é para glória de Deus e esta glória não pode ser confundida com nosso sentimento. Quanto menos aparecemos e quanto mais sua pessoa e seus atributos aparecem, mais a glória divina foi apresentada.

CONCLUSÃO

Muitas mais verdades poderiam ser mostradas neste cântico, mas a exigüidade do espaço nos limita. Recomendamos ao leitor que releia o estudo passado, após ter lido este. E reflita seriamente, lendo algumas vezes o cântico cristológico e trinitariano de Efésios 1.3-14. E que pense: Deus é mesmo glorificado em nossos cultos? Quem é a platéia, ele ou pessoas a quem queremos agradar? Tudo para a Trindade bendita. Que ela seja louvada!

Extraído de www.monergismo.com

Irmãos em Cristo Jesus.

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Mt 5:14 "Vós sois a luz do mundo"